Capítulo XI - Noite com as garotas


Com a cara mais lavada que poderia existir na Terra naquele momento, Paola tocou a campainha da amiga e abriu seu melhor sorriso. Quando Cibele abriu a porta, a diretora ergueu uma garrafa de bebida e disse um ‘desculpa’ mais perguntado que afirmado. A moça de pele escura apenas pegou a garrafa e deu passagem para as duas enquanto reclamava.
— Você não tem jeito, Paola. Não tem jeito mesmo. Tô esperando há horas. Horas!
— Belinha, não reclama tanto. Vai criar rugas. Vamos curtir e – aproximou-se da amiga e sussurrou: — a culpa não foi minha. Foi da Ana – sorriu e fingiu não ter dito nada.
Cibele olhou imediatamente para a consultora e ficou imaginando o que Paola tinha feito com essa mulher que tinha cara de santa, quiçá, devota à castidade.
“Coitadinha” – pensou a anfitriã ao tempo que agitava a cabeça negativamente. — Bem-vinda a minha casa, Ana Luiza. Sou a Cibele, a melhor amiga e a parte ajuizada da Paola.
Ainda desconfiada, Ana Luiza apertou a mão da jovem que, imediatamente, puxou-a para um abraço apertado.
— Eu sempre quis te conhecer. Sempre disse à Paola para tomar a iniciativa logo e te namorar, mas você sabe né... Medrosa, tadinha.
Paola ficou tão envergonhada que seu rosto mudou a tonalidade. Já Ana Luiza, achou graça daquilo tudo e caiu na gargalhada.
— De fato, Paola tinha certo receio, da mesma forma que eu tinha. Pensava que sua amiga queria apenas brincar comigo, mas, ao que tudo indica, é muito mais que isso, não é, amor? – proferiu com um risinho no rosto, sabendo que a namorada se irritaria com o que ela tinha falado.
— “Ao que tudo indica”, Ana Luiza? Sério? Estou completamente desgostosa com a senhora. – Cruzou os braços e bufou feito uma criança. Aquilo era novo para Cibele, pois, em hipótese alguma, já tinha visto a amiga de tal forma.
Ana, esperta como é, abraçou a companheira por trás e beijou seu pescoço para pedir desculpas, amansando sua fera.
— Vamos para a cozinha guardar essas coisas. Você pode ficar ali na sala, Ana. As meninas já estão lá.
Ana Luiza concordou com a cabeça e aguardou até que as duas voltassem. Enquanto isso Cibele desabafava com a amiga.
— Eu não aguento mais esse moleque atrás de mim, Paola.
— E por que não dá uma chance pra ele? Eu sei que idade não é problema pra você.
— Ele veio cantando de galo pro meu lado, mas eu já fui cortando a crista dele. Depois disso, ele não larga do meu pé – disse enquanto servia bebidas nos copos.
— Hmm – Paola murmurou pensativa enquanto juntava “B com A”. — Ele se chama Getúlio?
— Como que você sabe? Se for vidência, pode ir adiantando meu futuro.
— Não é vidência. É Ana Luiza mesmo – terminou aos risos e voltou para a sala com a comida.
Cibele, sem entender nada, pegou a bandeja com os copos e seguiu a amiga. Quando chegou à sala, encontrou a amiga emburrada ao lado da namorada. De imediato, a designer percebeu que o ciúme da diretora Biancchi estava fervilhando. Ana Luiza conversava animadamente com as outras amigas de Paola e Cibele, principalmente com Ludmila que, ora e outra, ficava tocando na senhora Arantes e Lima.
— Vejo que já se apresentaram – Cibele comentou sorrindo e distribuiu os copos.
— Já são íntimas, não tá vendo, Cibele? – Paola alfinetou.
Para com isso! – a amiga cochichou a repreendendo. — Você queria tanto incluir ela nas coisas e agora faz isso?
Porra, mas logo a Ludmila?! – retrucou em segredo, lamentando-se pela situação.
— Amor?
— Oi, vida – girou o corpo na direção da namorada para lhe dar atenção.
— Não sabia que você tinha uma amiga tão mais velha que você. Muito menos que fosse Capitã da Marinha.
Paola não teve olhos suficiente para revirar.
“Não acredito que essa cachorra já tá se exibindo” – Paola pensou e bufou.
— Capitã-de-Fragata – Ludmila acrescentou.
— Desculpa, eu não entendo muito dessas patentes.
— E nem precisa, não é, amor? Até porque você é do mundo dos negócios, assim como eu – acariciava o braço da amada, demarcando seu território.
— Você está muito bem acompanhada, Paola. Cuida dela, ou a roubo pra mim – brincou a capitã.
— Nem em sonho...
— Vamos beber e dançar!!! Uhul! – Cibele gritou e puxou Ludmila para dançar, animando as outras.
Sara, uma contadora, e Claudia, professora de literatura, foram dançar com as amigas. Já Ana Luiza ficou sentada com Paola.
— Por que fez isso, Paola? – ela questionou confusa.
— Você não percebeu que ela quase te comeu. Ela é sapatão, porra! Mais que eu! – reclamou, frustrada, em um cochicho.
— Você acha que ela estava demonstrando interesse em mim? – Paola nada disse, apenas fez uma cara de “é óbvio” para Ana concluir: — Mas que falta de respeito com você e comigo. Pensei que ela fosse sua amiga.
— Ela é, mas não pode ver uma mulher bonita. E você é maravilhosa, amor.
Ana ficou com a face um pouco corada, mas isso não a impediu de tocar o rosto da amada e a puxar para lhe dar um beijo casto nos lábios.
— Eu amo você, sua boba.
— Ei, ei, ei... Vamos dançar que isso aqui não é encontro de casal. É uma festa – gritou Cibele puxando as duas pelo braço.
As mais jovens dançavam músicas mais atuais enquanto Ana Luiza se sentia perdida no meio daquela confusão.
— Não tá gostando, Ana Luiza? – A designer questionou.
— Não é isso. Eu só não sei dançar essas músicas e as que eu sei, são velhas demais para vocês.
— Espera aí – a jovem disse e correu para o notebook. Fez uma playlist com músicas mais antigas e colocou para tocar. — Agora não tem desculpa – falou e sorriu em seguida.
— Eu tenho vergonha...
— Não seja por isso. Toma, bebe tudo. – Pegou um copo de caipiroska de abacaxi e virou na boca de Ana. — Já, já essa vergonha passa.
A colunista não era de beber, mas aquele drink docinho de abacaxi, que descia queimando a garganta, agradou-lhe tanto o paladar que tomou mais um e, de fato, a vergonha que ela tinha, desapareceu. Dançou com as meninas até se esgotar, até não se importar mais com a música que tocava.
Depois de algumas horas de festa, a música estava mais baixa e elas conversavam sobre diversas coisas. A maior parte do tempo, riam de Cibele, que ainda reclamava do tal rapaz. Dado momento, começaram a ouvir um barulho estranho na rua, como se um homem estivesse gritando. Intrigada, Ana Luiza começou a prestar atenção e quase caiu da cadeira.
— Eu não tô acreditando – reclamou a anfitriã da festa.
— Mas... Isso é o Getúlio! – Ana Luiza concluiu perplexa.
Paola simplesmente caiu na gargalhada, pois, mais cedo, já tinha percebido que o rapaz que a amiga falava era o filho da namorada. Ela se lembrou de uma conversa que teve com o próprio Getúlio e ele dizia estar apaixonado. Ela não conseguia se conter.
— Cibele, me dá uma chance! – gritou, o rapaz, completamente embriagado. — Cibele, eu vou morrer sem você...
— Você é tão dramática quanto o seu filho? – Paola perguntou aos risos.
— Então você é a moça que mudou meu filho? – Ana ignorou a gozação da diretora e se virou para Cibele.
— Cibeleeee – gritou mais uma vez, deixando a jovem estressada.
— Ana Luiza, pelo amor de Deus, eu não fiz nada. Seu filho encegueirou em mim e eu não sei o que fazer.
A consultora correu até a jovem e segurou em suas mãos como um lamento.
— Por favor, não descarte a possibilidade de dar uma chance para o meu filho. Eu não sei o que você fez, mas agora eu consigo ver o filho que eu criei. Ele não é uma má pessoa. Só precisa amadurecer e eu acredito piamente que você é a pessoa perfeita para ser minha nora.
— Eu não sei. A primeira impressão que tive dele foi horrível...
— Eu imagino... – Ana se lamentou.
— Mas por hora, vou descer e conversar com ele, ou ele ficará gritando até a voz sumir.
— Já pensou, você namorando meu enteado. Eu seria o que? Sua sogradrasta? – Paola não perdia a oportunidade de zombar.
— Vai se foder, Paola. Coisa chata – disse e saiu resmungando.
— Por que não me disse antes, amor?
— Eu te disse que não precisava ter ciúmes dela - abraçou a namorada e a beijou na cabeça carinhosamente.
Apartando os carinhos do casal, a capitã e a outra jovem se aproximaram para se despedirem.
— Vamos parar por aqui, meninas. A noite foi muito agradável, mas tenho que ir para casa – Ludmila disse.
— Tão cedo? Fiquem mais um pouco – pediu, Ana Luiza.
— Amor, já são quase 2hs da manhã. Deixa ela ir. Ela sabe o que faz…
— Paola, não seja grosseira.
A diretora não gostou do que a companheira fez com ela diante de suas amigas, já Ludmila achou graça e riu da situação.
— E você não seja minha mãe… – deixou a namorada na sala e foi para a cozinha.
— Desculpem-me pela situação chata… – Ana tentou reverter o clima estranho que se instalou no local.
— Não precisa disso, Ana Luiza. Eu também teria ciúmes se fosse ela tendo você como namorada… – Ludmila a beijou no rosto e se despediu.
A senhora Arantes e Lima sabia que Paola não precisava ter ciúmes, pois ela jamais faria qualquer coisa do tipo. Amava sua mocinha, não tão mocinha assim, mas entendia o motivo de ela estar assim. A capitã-de-fragata não colaborava e não perdia a oportunidade de elogiar Ana Luiza. Despediu-se das meninas e foi atrás da namorada.
Na cozinha, encontrou Paola virando a garrafa de vodca na boca. Tudo isso por causa do maldito ciúme. Aproximou-se da diretora Biancchi e tomou a garrafa, puxando a parceira pelo braço para ter sua atenção.
— Você ficou louca? Quer entrar em coma alcoólico? – Estava enfurecida. Colocou as mãos na cintura e fitou a namorada com raiva.
— Cadê as meninas? Vamos nos divertir! – gritou bêbada. — Não era isso que você queria quando ficou dando trela pr’aquela vagabunda?
Ana Luiza quase acertou um tapa no rosto de Paola. Só não aconteceu porque ela parou a própria mão próxima à pele da diretora. Para não a agredir, pegou a garrafa de vodca e arremessou contra a parede; quase acertou Cibele que passava pela porta ao lado.
— O que aconteceu aqui? – Cibele se aproximou assustada e preocupada com Ana Luiza. — Você é sempre tão calma…
— Sua amiga acabou de insinuar que eu sou uma vagabunda que quer sair transando com todo mundo – falou com raiva, tristeza e lágrimas nos olhos. Uma mão estava na cintura e a outra na testa, tentando conter toda a tensão do momento. — Pra não estapear a cara dela, eu joguei a garrafa. Me perdoe pela bagunça, Cibele.
— Amor, eu…
— Eu não quero falar com você agora! – Nem mesmo a olhou para lhe dirigir a palavra.
— Endoidou, Paola? – Cibele perguntou irritada. — Não precisa se desculpar, Ana. Tudo bem.
— E meu filho?
— Coloquei ele no táxi e o despachei para casa. – Abaixou-se e foi recolher os cacos de vidro no chão.
— E ele foi fácil assim? – Ana Luiza se abaixou para a ajudar. Sentia-se mal pela confusão que causou na casa da designer.
— Não. Passei meu telefone e combinamos uma saída…
Ana comemorou batendo palmas de forma curta e rápida, encarando aquilo como um ponto positivo.
— Só não espere muito dessa saída, ok, Ana? Não crie expectativas, por favor.
Paola tentou ajudar, mas foi impedida pelas outras duas mulheres. Acabaria se cortando devido ao estado que se encontrava. A consultora se perguntava o quanto ela já tinha bebido e misturado para estar tão bêbada.
— Quero ir para minha casa… – a colunista murmurou ainda agachada.
— Quer que eu te leve?
— Não precisa, Cibele. Vou de Uber. Inclusive, já vou pedir.
— Eu vou com você, amor – as palavras saíram um pouco emboladas devido a embriaguez, mas foi compreensível. — A gente precisa conversar.
— Não estou com energia pra dizer que não te quero comigo hoje – lamentou-se ao passo que agitava sua cabeça negativamente. — Vamos que o carro está chegando… Cibele, mais uma vez, me desc…
— Não se desculpe, por favor. Vou te ajudar com a Paola.
Ana Luiza levava as bolsas e os sapatos nas mãos, tanto os seus como os de Paola. Cibele levava a amiga escorada em seu ombro. Despediram-se e partiram para a casa de Ana, que não era muito longe. Depois Paola buscaria seu carro na casa da amiga. Dentro do veículo habitava apenas o silêncio e quando a diretora tentava falar, a senhora Arantes e Lima a pedia para se calar.
— Ana Luiza, vai me ignorar até quando? – Paola perguntou ao passar pela porta do apartamento.
— Agora quer conversar feito adulta?
— Eu sei que eu fiz merda e disse merda também, mas você me tratou feito criança na frente daquela filha da mãe.
— Eu sei disso e ia me desculpar depois. Mas era a sua amiga que estava dando em cima de mim. Eu estava sendo educada. Inclusive, achei bem deselegante da parte dela. Agora insinuar que eu sou vagabunda?
— Me perdoa, Ana. A Ludmila me tira do sério. Me perdoa… – implorava quase se ajoelhando. Ainda se escorava nas paredes para ficar de pé.
— Eu não tenho nada a ver com ela. Ela é problema dela, não meu… – deu as costas e quando ia ir para o quarto, ouviu Paola tropeçar e cair no chão sobre o próprio vômito.
Socorreu a namorada, tirou sua roupa e a levou para o banheiro.
— Faz um esforço para ficar de pé – pediu enquanto abria o chuveiro frio.
— Me perdoa, Ana… Agora você vai me deixar… – a diretora murmurava chorando.
— Eu não vou fazer isso, mas precisamos conversar. Agora fica quietinha que eu vou acabar de te dar banho.
Ana Luiza a lavou com cuidado e a colocou na cama após vestir um pijama.  Limpou o corredor e preparou um chá para a namorada. Voltou para o quarto com uma xícara e um comprimido para que ela não tornasse se sentir mal. Pena que remédio nenhum curaria a dor de Paola naquele momento.
— Aqui. – Entregou a bebida e o medicamento.
— Eu não te mereço… - olhava para a caneca. Não tinha coragem de encarar a namorada.
— Vai querer terminar comigo na nossa primeira briga séria?
— Olha as coisas que fiz você passar. Além de ter te dado trabalho…
— Eu sei que ficou com ciúmes e que estava bêbada, mas isso não justifica o que você disse. Eu estava sendo educada, Paola.
— Eu sei, mas eu não confio na Ludmila.
— Você tem de confiar em mim. Se ela tentasse algo ou dissesse algo inapropriado, eu teria a colocado em seu lugar. Paola, eu te amo! Confia em mim.
— Me perdoa, Ana. Eu prometo não fazer nunca mais.
— Eu sei que não vai… agora beba esse chá de boldo e tome o comprimido – sorriu para a namorada, incentivando-a a tomar o remédio. — Me desculpe por ter falado com você daquela forma na frente das meninas.
— Tudo bem. Eu te amo.
— Não mais que eu.
Trocaram um beijo casto e alguns carinhos. Ana Luiza levou a xícara para a cozinha e aproveitou para tomar banho. Quando retornou, Paola já dormia. vestiu-se sem fazer barulho e se deitou ao lado da amada. Beijou-lhe o topo da cabeça e dormiu abraçada a ela.


Comentários

  1. Respostas
    1. Ei, tudo bem? Eu tô na peleja aqui, escrevendo e esitabdo pelo celular pq eu fiquei sem PC /chorando/ Tô assim até ter um PC/notebook novo. Desculpa de verdade pela demora. :(

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    2. Poxa, que chato. Mas calma, vai dar tudo certo! :)

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