Capítulo III – Mas essa tal de saudade...


Do avião, Paola olhava a paisagem minúscula pela janela. Bufou irritada e recostou seu corpo ao assento, fechou seus olhos e relembrou o episódio de horas mais cedo.
Getúlio havia convocado uma reunião imediata, sem aviso prévio, exatamente uma semana após ter se saído mal em seu primeiro concílio. Tinha conseguido um cliente do Chile e precisava que alguém fosse o encontrar em seu país, pois, como chefe de uma rede de hotelaria, não poderia se afastar no momento.
Não era função de a diretora Biancchi fazer esse tipo de viagem, mas seu chefe já tinha adquirido certa antipatia por ela ou, como dizem por aí, pego implicância com ela. Queria saber se ela era tão boa quanto dizia e ainda a mandaria para um lugar no qual ela não tinha interesse em ir. Paola pensou em pedir que outra pessoa fosse a acompanhando, já tendo em vista suas pretensões quanto à Ana Luísa, mas preferiu não tocar no assunto.
Getúlio conseguiria fazer coisas mirabolantes sem os conselhos da colunista. Era melhor viajar sozinha que acompanhada de alguém que ela não tivesse apreço e manter seu emprego ao voltar. Ela entendeu isso como um sinal de guerra e estava disposta a mostrar para aquele moleque como se faz negócios. Estava extremamente irritada com seu presidente: mandou-a em uma viagem de negócios e a afastou de Ana Luísa.
Agora estava no avião a caminho de Santiago para ficar 2 dias fora e já sofrendo com o tédio que a faria companhia.
Em Vitória, Ana Luísa estava na sala do filho, em sua mesa, redigindo sua nova publicação semanal da coluna “Ao Trabalho”. Sentia-se incomodada e frustrada por não conseguir escrever uma linha com um raciocínio contínuo, coisa que não lhe acometia há anos. Seu tema deveria ser o boom no mercado informal, mas os assuntos que vinham em sua mente estavam sempre relacionados a viagens de negócios.
Olhou para o relógio, que marcava 11hs e 42min, e decidiu que almoçaria mais cedo. Deixou algumas recomendações com a secretária da presidência e avisou ao filho que não voltaria. Não estava se sentindo bem e tiraria à tarde para descansar. Não gostava do lugar e, tinha de admitir, sem Paola, estava insuportável e ainda mais estressante que o normal.
Em uma semana, já tinha se acostumado a almoçar com ela todos os dias.
Sentou-se no mesmo lugar de sempre e, por alguns segundos, admirou o nada, pensativa.
“O que Paola está fazendo agora? Será que já chegou a Santiago?”, pensou antes de cogitar comer a refeição de seu prato. “Acho que sim, pela hora que ela saiu.”, completou.
Comeu bem pouco e se retirou, questionando-se o porquê de estar pensando tanto em Paola e se sentindo tão amuada. Da recepção do prédio, aguardava a chegada do Uber. Ana Lu não tinha carro por não gostar de dirigir e não queria ter um carro em casa. O dinheiro que pagaria outra pessoa e a manutenção do carro cobria os gastos com Uber e/ou táxi e ainda lhe sobrava.
No momento, a única coisa que desejava era chegar a sua casa, tomar um bom e relaxante banho e assistir suas séries para, talvez, mais tarde, concluir seu texto da coluna. E pela empresa, o máximo que faria era torcer para Getúlio seguir o que ela havia deixado para ele. Além do mais, Alice – a secretária – ligaria caso algo acontecesse.
A diretora Biancchi tinha acabado de se instalar no hotel de Javier Lafferte Gana, o possível futuro cliente da B.P.C. Ainda faltava muito tempo até a hora do jantar, onde se encontraria com o tal homem.
Caminhou pelas ruas da capital se encantando com as árvores repletas de flores. Em algumas bancas da rua, viu diversos artesanatos e um que lhe chamou bastante atenção: uma manta mapuche marrom com alguns detalhes em preto e cinza. Linda. Logo comprou e pediu para embalar para presente. Comeu por ali mesmo e voltou para o hotel com intuito de descansar para a noite.
Relaxava na banheira do hotel chileno, mas sua mente vagava no Brasil, em certo estado do Sudeste. Tinha saído de seu Estado há apenas algumas horas e já estava com saudade de Ana Luísa; das risadas e da conversa gostosa. Daqueles olhos que brilhavam após ter sido elogiada por Paola. Sentia saudade da meiguice da mulher; do cheiro; de tudo.
Estava com ódio de seu chefe, mas, ao mesmo tempo, agradecida. Este tempo lhe serviria para pensar no que sentia que, por sinal, ela já sabia, mas jamais admitiria tão cedo. O interesse em Ana estava forte demais, forte ao ponto dela se sentir triste longe da colunista.
Ah! Como queria abraça-la e lhe dizer o quanto ela é linda; sem brincadeiras; sem encobertar; sem deixar no ar. Ser direta e dizer o que pensa, mas ela não é o tipo de pessoa que se pode chegar e falar. Ela precisa de confiança e entender o que ela – Ana Luísa – está sentindo no momento. Que esta amizade está se tornando cada vez mais íntima e em tão pouco tempo.
Quando foi que começou a ter afeto por Ana Luísa além de desejo?
Quando foi que passou a pensar em presentear uma mulher antes mesmo de ter, de fato, um encontro?
Nem mesmo a própria Paola tinha essas respostas e preferia encarar tudo como apenas um jogo de sedução. Assim estava bom por ora.
Vestiu um roupão e se deitou. Dormiu quase que ao mesmo tempo que Ana Luísa e ambas sonharam uma com a outra. Estavam almoçando, como todos os dias, o diferencial foi a atitude da mais jovem ao se retirarem do refeitório: segurou a mão da mulher e apertou com força, para que ela não sumisse por entre seus dedos. Levou-a até o elevador e, dentro dele, empurrou Ana Lu contra a parede metálica e a beijou. Ana a correspondeu e a abraçou forte, sentindo-se desejada e amada como nunca fora antes.
Ana Luísa acordou assustada com o barulho de sua campainha tocando. Paola somente viria a acordar algumas horas mais tarde por meio de seu despertador.
A consultora se levantou, lavou o rosto e foi verificar quem era a pessoa insistente que estava à sua porta.
— Já vai! – Gritou já irritada.
Era Getúlio.
— Getúlio? O que faz aqui essa hora? Não deveria estar trabalhando? – Bombardeou o rapaz com perguntas.
— Mãe, já viu a hora? São seis e meia. Eu saí da empresa e resolvi passar aqui e ver como você está. Melhorou? – Perguntou e entrou no apartamento.
Ana Luísa se sentiu um pouco mal pela forma que tratou o filho, quando este somente estava preocupado com ela.
— Estou sim filho. Não acredito que dormi tanto e não escrevi uma linha da minha coluna – lamuriou-se com a mão na testa.
— Isso você consegue rapidinho.
“Quem me dera!”, pensou a mãe do rapaz.
— E o que você tinha no fim das contas? – Sentou-se no sofá, ainda olhando para sua mãe que se aproximava.
— Enxaqueca – mentiu. — Mas já estou melhor. Correu tudo bem no trabalho?
— Claro – mentiu também. Por que incomodar sua mãe com alguns probleminhas agora? — Vamos pedir comida? – Mudou o assunto.
Ana conhecia bem o filho e sabia que ele estava mentindo, mas não tinha cabeça para mais nada no momento; apenas para seu sonho com Paola. Sonho que a fez acordar com a boca seca de vontade de... Não, impossível! Coisa de sua cabeça. Era isso.
Paola se levantou quase oito horas da noite com aquele sonho fresco em sua mente. Arrumou-se e desceu para o restaurante do hotel, aguardando o anfitrião na mesa preparada para a ocasião. Esperava um homem de cabelos brancos, ranzinza e grosso, porém, foi surpreendida por uma jovem mulher de cabelos castanhos e olhos verdes como os de Ana Luísa.
Diferente da diretora, que estava formalmente vestida, a jovem tinha os cabelos soltos e usava um vestido branco leve e sapatilhas pretas; bem informa.
Ela se apresentou como Noelia Lafferte, filha de Javier. A jovem explicou que seu pai está muito doente e ela tomou a frente dos negócios. Ela explicou o que desejava à Paola, que era basicamente atrair turistas brasileiros para o hotel. A diretora rapidamente traçou uma proposta para a cliente que a encheu os olhos.
Após uma hora de conversa a trabalho e um jantar maravilhoso, Paola tinha conquistado mais um cliente para a B. Publicidades e Comunicações. Porém, isso não estava a deixando feliz no momento. Mesmo estando ao lado de uma mulher bonita, que a olhava furtivamente ora e outra, apenas pensava na mãe de seu chefe. A jovem a lembrava muito; os olhos verdes, cabelos escuros, pele clara e muito educada, no entanto, não tinha o “q” que Ana Luísa Arantes e Lima tinha para a senhorita Biancchi.
Contrariando o que normalmente ela faria – conquistar a jovem –, ela apenas concluiu o assunto profissional, despediu-se e se retirou. Não ficaria mais nenhum minuto além do necessário naquele país. Ligou para a companhia aérea de seu voo e adiantou sua passagem, que era para as 13hs, para as 8hs da manhã.
Getúlio acabou dormindo na casa de sua mãe, fato que a deixou um tanto estressada. Já tinha se desacostumado com os caprichos do filho e acabou indo dormir desejando que o filho fosse para o quinto dos infernos. Como podia ser tão parecido com pai? Agora, às 9hs e 27min, ajeitava-se em uma sala própria, que ela fez o filho conseguir após a noite desastrosa que teve.
Tinha de ser realista: não iria conseguir ficar naquela sala com o filho fazendo comentários absurdos por muito tempo, então, o melhor foi adiantar a mudança antes que seus cabelos estivessem caindo de raiva e preocupação. Levaria a manhã toda para deixar as coisas em ordem, mas, ao menos, teria paz e sossego.
Biancchi chegou à empresa quase no horário que costuma almoçar com Ana Luísa. Como todos da empresa a esperavam de volta apenas no dia seguinte, ela decidiu fazer uma surpresa para sua querida amiga e se direcionou para a presidência.
— Alice, não precisa me anunciar para a Senhora Ana Luísa.
— Mas, dona Paola, a sala dela não é mais aí – a moça a alertou antes de abrir a porta.
— Como não? – Virou-se para a jovem com a expressão de surpresa.
— Ah, dona Paola, ela chegou toda estressada hoje, brigando com o filho. Disse pro seu Getúlio arrumar uma sala só pra ela, ou ela ia embora.
— Entendi – respondeu sucinta diante de tanta informação desnecessária. — E onde é a sala dela agora?
A jovem explicou que a sala ficava em um lugar mais escondido, ao fim do corredor. Paola deixou a menina em seu lugar e foi para o local indicado. Pela porta de vidro ela pode ver a colunista de costas, ajeitando alguns livros na estante, que estava localizada atrás da mesa. Entrou sem fazer barulho e não se importou em fechar a porta. Getúlio estava almoçando, a única pessoa que poderia chegar ali, e as outras não incomodariam Ana Luísa sem, antes, se pronunciarem.
Deixou o pacote de presente cautelosamente sobre a mesa e se aproximou, cobrindo os olhos da mãe de seu chefe com as mãos. De imediato, Ana Lu soube quem era a pessoa, sentindo seus pelos se arrepiarem debaixo do tecido da calça e terno, juntamente com o frio que sentiu na barriga. Aquele cheiro gostoso do perfume que apenas ela usava era inconfundível, mas se fez de desentendida:
— Quem é? Não gosto desse tipo de brincadeiras – mas desta estava gostando.
— Se adivinhar quem é, você ganha um cheiro – a diretora sussurrou.
— Paola?
Mais que depressa, Paola deu um beijo gostoso no rosto da mulher e um cheiro que deixou seus pelos eriçados e bem aparentes na região da nuca e pescoço.
— Hmm, que cheirosa – concluiu o ato com esses dizeres.
Ana Luísa travou e sentiu seu coração dar um salto. Que “diabos” estava acontecendo com ela para a esta altura de sua vida estar se interessando por uma mulher? Tinha de ser carinho e admiração.
— Trouxe um presente para você – mudou o assunto e soltou Ana para pegar o presente. — Espero que goste. Assim que vi, me lembrei de você.
— Não precisava – tentou responder da forma mais estável que conseguiu.
— É apenas uma lembrança do Chile, para comemorar que temos um novo cliente – sorriu.
— Sério? – Biancchi confirmou com um aceno de cabeça e Ana Luísa a abraçou em comemoração.
Como de se esperar, não foi um simples abraço. Estava carregado de intenções e desejos, desfeito rapidamente por este mesmo motivo.
— Veja o presente – disse para se livrar do embaraço causado pela situação.
A consultora ficou alegremente surpresa ao ver que era uma manta mapuche lindíssima. Tirou o terno, permitindo que Paola vislumbrasse as sardinhas de seus ombros desnudos, e vestiu a manta para ver como lhe cairia.
— Como ficou? – Questionou com seus olhos mais brilhantes que nunca.
— Linda! – Aproximou-se lentamente e segurou as laterais da manta, ajustando-a à cintura de Ana Luísa. — Mas com um cinto você ficaria ainda mais bonita. Destacaria sua cintura – disse a apalpou a região.
Ana suspirou e tentou disfarçar sorrindo, afastando-se da mais jovem para retirar a vestimenta.
— Obrigada pelo presente Paola. Eu amei – abraçou-a em agradecimento, mais apertado que o convencional.
— Não agradeça. Foi mais prazeroso para mim, te ver sorrir, que qualquer outra coisa.
A mais velha não deixou passar despercebidos a entonação da diretora e o flerte encoberto que ela deixou no ar. Apenas sorriu. Paola a fazia sorrir.
— Almoça comigo?
— Hoje não posso Ana. Tenho um compromisso hoje à noite e tenho de ir para casa descansar agora.
— Ah, que pena. Tudo bem, querida e, mais uma vez, obrigada pelo carinho.
— Já disse para não me agradecer. Não vá se atrasar – disse se encaminhando para a porta.
— O quê? Não entendi.
— Não se atrase para nosso jantar hoje à noite. Passarei em sua casa as 19 e 30. Até mais tarde – concluiu e saiu.
Ana Luísa estava notavelmente confusa. Paola realmente não tinha se esquecido do convite para jantar e o tal compromisso era com ela mesma. No momento, a única coisa que a mulher pensava era se teria algum problema em sair mais cedo para ela se preparar física e espiritualmente.

Comentários

  1. Paola é o próprio demônio, irmãos. E quem não gosta disso, né non?

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