Capítulo II - Impressionando a mãe do chefe


Passava das 9 horas da manhã e a sala de reuniões da empresa já estava em polvorosa. Paola revirava os olhos e só pensava no quão incompetente seu chefe era. Estava propondo algo surreal para o porte da organização: queria pedir um valor exorbitante de empréstimo para um banco e criar um projeto inovador. A cada palavra que escutava, sua impressão sobre Getúlio só piorava.
Isso visivelmente colocaria a B. Publicidades e Comunicações e maus lençóis. Somente um cego não vê que, se o custo para a produção de um produto é alto, logicamente seu preço será elevado, afetando diretamente os demandantes – os clientes finais – que deixariam de fechar negócios com eles e preferir a concorrência. Mas o que esperar de uma pessoa que foca apenas no produto – a publicidade – e não no negócio como um todo?
Estava prestes a abrir a boca e questionar o jovem, porém, o furdunço foi interrompido por Ana Luísa ao chegar à sala.  
— Desculpem o atraso – disse ao se sentar em seu devido lugar. — Getúlio, ponha-me a par de tudo.
Após alguns minutos ouvindo o filho, Ana Luísa não sabia se chorava ou se ria de desespero. O menino era um desastre na administração. Ela calmamente respirou fundo, olhou nos olhos do filho e finalmente disse:
— Você ficou maluco Getúlio? O que você quer fazer é pura inconsequência. Quer afundar a empresa?
— Mas seria uma inovação criarmos um outdoor em 3D. Seria sensacional!
— E uma bela burrice – Paola finalmente se pronunciou. Não aguentava mais ouvir as asneiras que aquele homem dizia.
— Veja como fala com seu superior senhorita Biancchi! – Elevou o tom de voz, tentado impor sua superioridade de cargo.
— Ela está certa, Getúlio.
Paola fitou a mulher de soslaio com um discreto sorriso. Quanto mais aquela mulher explanava o assunto com tanta propriedade, mais atraente ela ficava aos olhos da diretora.
— E por que ela está certa? – Getúlio, como um bom mimado, não aceitava a argumentação da mulher.
— Pode deixar que eu mesma respondo, Ana Luísa. Primeiro: criar uma estrutura, televisão ou o que seja, resistente à água, de alta tecnologia para esta peripécia que você pretende fazer. Você sabe o custo disso tudo? Altíssimo! Agora tenho uma pergunta pra você, senhor presidente: você irá disponibilizar os óculos 3D para todos os passantes da rua?
A jovem diretora tinha o olhar confiante e vitorioso. Tinha certeza que Getúlio havia pensando apenas no produto final, esquecendo completamente de todos os envolvidos de uma cadeia de suprimentos, custos e despesas. Ana Luísa olhava a mulher admirada; ela fazia jus ao cargo conquistado e, de fato, era ela que deveria estar no comando da empresa.
O presidente se viu em uma “sinuca de bico”. Não sabia mais como contestar e estava frustrado por isso. Ela – Paola – estava certa e doía em seu ego ter de admitir.  Encarou a diretoria e viu aqueles olhos julgadores que esperavam uma resposta; uma proposta ou solução. Ficou tão desconcertado que não sabia o que dizer.
— Vamos continuar com a nosso método, vamos apenas abordar nossos clientes de outras formas e deixar o produto mais atrativo, oferecendo algumas vantagens que podemos pensar melhor depois sobre – Paola disse, tomando a frente da situação. — Claro, se nosso presidente aceitar.
— Está ótimo, Paola. Dou por encerrada esta reunião – levantou-se e saiu às pressas da sala.
Seu nível de constrangimento era tanto que não estava conseguindo ficar naquele espaço. Sentia-se humilhado por aquela mulher.
Aos poucos, a cúpula da empresa se retirou, ficando apenas as duas únicas mulheres na sala de reuniões. Paola arrumava sua pasta distraída, nem imaginava que a consultora ainda estivesse ali; ela poderia ter saído com os outros diretores. Ana Luísa a olhava com um sorriso, admirada com a coragem e petulância daquela mulher.
— Você é muito audaciosa mocinha – disse atraindo a atenção de Paola.
A diretora não pode deixar de se fascinar pela cena que viu: Ana estava inclinada para o lado esquerdo na cadeira com o braço no apoio da cadeira; pernas cruzadas e em sua mão direita jazia uma caneta que ela mantinha na boca. Teve de se conter para não deixar a língua fora da boca e falar mais do que devia.
— Faz muito tempo que não me chamam assim – olhou para a outra com um sorriso nos lábios. — A mocidade não me pertence mais.
Ana Luísa revirou os olhos ainda sorrindo. Como poderia dizer aquilo?
— E quanto ao ser audaciosa, posso ser muito mais que isso, basta que me peçam – piscou sugestiva e deu volta à mesa, aproximando-se de Ana Luísa.
A consultora desconversou e fingiu que não captou a indireta da outra mulher, apesar de sempre se sentir lisonjeada com elas. Tinha de admitir: enchia-lhe o ego ver que uma mulher tão jovem e bonita estava interessada nela, mesmo que ela apenas quisesse uma amizade – ou não.
— Você se saiu muito bem Paola. Se mostrou digna do cargo.
— Eu disse para não duvidar de mim – parou ao lado da mãe de seu chefe e a cortejou com a mão.
— Você é muito cortês. Não se vê mais isso hoje em dia – deu a mão para a mais jovem e se levantou. — Obrigada.
— Não agradeça. Eu apenas te ofereço o mínimo, quando queria te dar o máximo... de gentileza, é claro.
— Você é uma querida. Tem algum compromisso na hora do almoço?
Aquela pergunta pegou Paola de surpresa. Quando poderia imaginar que escutaria tal questionamento feito por Ana Luísa?
— Não. Ia almoçar sozinha no restaurante do prédio mesmo.
— Pois bem, aceita almoçar comigo? Quero discutir umas coisas sobre a B.P.C. com você.
A animação da diretora foi do céu ao inferno. Falar de trabalho no horário de almoço era uma coisa que ela definitivamente detestava, mas para ficar ao lado de Ana Lu ela faria este sacrifício.
— Claro que sim, mas como está me convidando para almoçar, me recuso a comer com você aqui no restaurante do prédio. Não que ele seja ruim; você que merece um lugar mais atrativo.
— Por que não deixa para me convidar um outro dia para um jantar, quem sabe, e vamos aqui mesmo hoje?
Aquilo soou como mais uma chance de sair com a formosa mulher e, de pronto, ela aceitou.
— Tudo bem, mas não pense que não vou cobrar.
— Eu acredito – sorriu.
Ana Luísa finalmente se levantou, permitindo que a diretora Biancchi vislumbrasse aquela mulher em um vestido preto social até seus joelhos, meias-calças pretas, saltos também pretos e um terninho vermelho cobria-lhe os braços. Aquela mulher era seu pecado em terra. Esquadrinhou a mulher, medindo-a de cima a baixo e sentiu seu sangue esquentar.
— A propósito Ana Luísa, você está extremamente linda e esse batom marrom lhe cai muito bem.
Mais uma vez a mulher não soube como reagir e apenas ofertou um sorriso para a acompanhante. Era estranho para a colunista, pois quando um homem lhe fazia/faz o mesmo tipo de regalo, ela ficaria/fica irritada, porém, com Paola é diferente. Paola massageia seu ego, mas vai além disso; ela desperta sua vontade de receber elogios e se fazer notada, afinal, ela não foi tão alinhada para a empresa por qualquer motivo ou uma súbita vontade de se sentir mais bonita.
— Obrigada querida. Pena eu não ter esse rostinho com pele de pêssego que você tem.
— A sua me agrada mais – sorriu insinuante.
— Não seja boba – brincou e, em seguida, olhou para seu relógio de pulso e se atentou ao tempo. — Melhor eu ir para a sala do Getúlio ou ele será capaz de afundar isso aqui – apontou os dedos para as instalações do prédio – em dois tempos.
— Eu não duvido – complementou sorrindo. — Infelizmente eu tenho de voltar a trabalhar, mas saiba que sua companhia é muito melhor e mais inspiradora que uma pilha de processos e contratos.
— Eu digo o mesmo para você mocinha. Sua companhia me é muito agradável.
— Até mais tarde Ana – como da vez passada, deu um beijo no canto da boca da mulher e se retirou.
Aquilo, de certo modo, estava fazendo a consultora sentir coisas gostosas das quais ela não sabia explicar o que era, mas era bom. Gostava da presença de Paola e enquanto estivesse gostoso, deixaria assim. Qual o problema de uma amizade mais íntima?
O tempo passou razoavelmente rápido e a hora do almoço chegou. Elas realmente trataram de negócios nele. Ana Luísa pedira ajuda à Paola com relação a tomar conta dos movimentos e ações do seu filho na empresa. Tinha medo que ele fizesse alguma catástrofe e os acionistas ficassem furiosos com ele. Ficariam apenas no profissional se a diretora não tivesse agido como uma criança e roubado um pedaço do Petit Gateau da colunista e levado a boca dela própria.
Ana ficou um tanto irritada. Ninguém rouba sua comida. Reclamou com a mais jovem e recebeu um aviãozinho de Torta Holandesa que a mais nova comia. Encabulada, ela abriu a boca e fechou os olhos apreciando o sabor da sobremesa.
Era uma cena linda de se ver.
De tanto admirá-la, Paola percebeu um pouquinho de chocolate no canto da boca da mãe de seu chefe e como não poderia limpar da forma que gostaria – com a boca – estendeu a mão com o guardanapo e acariciou lentamente a região, espantando Ana com seu gesto.
— Estava sujo aqui – continuou com o carinho mesmo após já ter limpado todo o chocolate. — Você é tão linda, parece Afrodite personificada na Terra – mantinha-se hipnotizada aos olhos verdes de Ana Luísa.
A senhora Arantes e Lima baixou os olhos e sorriu.
— Obrigada, mas não é para tanto – desviou o olhar para a janela e continuou: — Acho que está na hora de voltarmos.
Que mulher mais escorregadia. Às vezes tinha a impressão de incomodá-la com os elogios, mas uma coisa que a vida lhe ensinou era: nunca, em hipótese alguma, peça desculpas por um elogio feito. Tudo tinha um tempo e ela – Paola – não tinha pressa.
O resto do dia foi tranquilo e de sua sala, Paola consegui ver aquele pecado em pessoa perambular pelo Hall das salas. Ora e outra ela tinha de sair para resolver alguma coisa, sempre passando em frente ao escritório da diretora. Paola não sabia se era consciente, mas sempre que passava em frente à diretoria, Ana Luísa mudava seu caminhar para um mais lento e sensual e eram nesses momentos que ela sentia vontade de matar aquela demônia em corpo de mulher.
Parecia querer atiçá-la, porém, tinha de ser involuntário. Ana era sempre tão evasiva, sempre carinhosa, mas nada mais que isso.
Ana, sempre que passava por aquele Hall, sentia que alguém a filmava enquanto passava e ela tinha certeza de quem se tratava. Talvez seu instinto de elevar seu ego a levasse a mudar seu caminhar para firmar os olhos de Paola sobre ela. Era bom saber que ainda era viva e que alguém se atraía por ela.
Era bom pois era ela, do contrário, ficaria irritada se um homem o fizesse e acharia até grosseiro.
Ao finalizar o dia, Paola tinha certeza que seria divertido ter aquela mulher na empresa e, até mesmo, emocionante. Quanto a certeza de Ana era outra: seria extremamente estar com aquela mulher instigante e provocante no mesmo lugar.
A única coisa que tinham em comum era a ideia de que isso tudo era um tanto gostoso demais para ser deixado de lado ou ignorado por ser uma coisa da cabeça de uma das duas. A conquista nunca foi tão interessante para Paola e o cortejo nunca foi tão fascinante como agora.

O jogo apenas acabou de começar.

Comentários

  1. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA PAOLA É MINHA RELIGIÃO, BICHO
    SERIA PEDIR MUITO UMA NAMORADINHA COMO ELA? <3

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  2. Vamos fundar a igreja da Santa Paola haha. Amo a Paola.

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