Capítulo I - Nada mais que gentileza... Será?



          Hoje seria mais um dia de glória para Paola Biancchi. Ascenderia à presidência da B. Publicidades e Comunicações, realizando seu maior sonho. O que ela não esperava era que Antenor Damasceno Belchior deixaria seu único filho, Getúlio Arantes Belchior, como o presidente da empresa simplesmente por ser herdeiro – o que ela achou um disparate.
Ela estava sentada na primeira fileira do auditório assistindo o rapaz, de 27 anos, discursar algumas palavras sobre seu falecido pai e a organização. Ele havia chegado recentemente dos Estados Unidos, onde cursou seu MBA e seu mestrado em publicidade e propaganda. O que mais frustrava a mulher era o fato do rapaz ser menos preparado que ela estar tomando o lugar que tanto almejou.
Logo ela, uma mulher de 33 anos, quase doutora, ser chefiada por um moleque mimado e sem bagagem.
De onde estava, olhava para o homem engravatado ao tempo que revirava os olhos diante das palavras vazias que ele dizia. Procurou algo mais interessante e se deparou com aquela mulher impecavelmente vestida com um terno feminino de fino corte, saltos altos e um elegante colar de pérolas, acompanhado de um par de brincos.
Paola decidiu que seria mais interessante admirar aquela mulher que escutar as ladainhas de seu novo chefe. Do seu lugar, podia ver superficialmente o rosto da mulher com seus traços duros, porém, não menos elegantes. Lábios finos com um batom nude, a deixando ainda mais elegante, combinando perfeitamente com seus olhos verdes penetrantes, quase translúcidos.
Ana Luísa se sentia um tanto desconfortável naquele lugar. Odiava tudo na empresa de seu ex-marido, agora falecido. No entanto, seu incômodo não se dava apenas por isso. Sentia-se vigiada e detestava tais coisas. Sabia, desde o início, que seria uma péssima ideia ir até a B. Publicidades e Comunicações, mas era um dia importante para seu filho e, por ele, foi.
Quando casada, dirigiu a empresa com exímia maestria graças a sua experiência profissional e sua formação, entretanto, ficou desgostosa com o lugar após descobrir as traições de Antenor. Pediu o divórcio e passou a se dedicar apenas a sua coluna no jornal local sobre o mercado de trabalho e administração de empresas. Agora, estava novamente naquele auditório, mas dessa vez, apenas como convidada.
Olhou rapidamente para a plateia e percebeu intensos olhos escuros a observando. Sorriu brevemente, de forma educada, dando um aceno com a cabeça. Paola retribuiu o gesto e manteve seu olhar fixo à mulher, como se tentasse desvendar os mistérios que a outra encobria. Ana Luísa preferiu desviar o olhar para o filho e se concentrar no que ele dizia, mesmo estando extremamente entediada.
 — (...) sei que não será uma tarefa fácil, mas conseguiremos inovar e fazer a empresa transcender. Agora, quero chamar ao meu lado minha querida mãe e mais nova consultora da B. Publicidades e Comunicações – direcionou o braço para a mãe e a chamou.
 Aquilo pegou as duas mulheres de surpresa. Ana Lu, para os íntimos, por ter recebido tal notícia de rompante, sem ao menos ter sido consultada. Já a diretora Biancchi chocou-se ao descobrir, que aquela mulher que lhe despertava tanto interesse, era a mãe de seu chefe. Isso acabou com os planos de flertes de Paola, mas, ao pensar por dois segundos, viu novas possibilidades.
 A senhora Arantes e Lima deu alguns passos e parou ao lado de seu único rebento, fuzilando-o enfurecida, fazendo o rapaz soltar uma gargalhada exagerada.
 — Parece que mamãe não gostou da surpresa – brincou. — Que tal algumas palavras para quebrar o gelo? – Sugeriu ainda rindo.
 A mulher, enraivecida, tomou o microfone das mãos do filho e mirou todas aquelas pessoas para, por fim, falar.
 — Pois bem, como puderam perceber, eu não esperava essa notícia, principalmente feita de forma tão esdrúxula, mas meu filho é assim, palhaço desde criança. Conheço esta empresa melhor que qualquer pessoa. Já a dirigi e sei dos seus pontos fortes e fracos. Como Getúlio me quer trabalhando como consultora, estarei na sala dele prestando serviços de consultoria para quem precisar. Espero que possamos nos entender, apesar do meu gênio difícil. Fico por aqui para não tomar mais o tempo de vocês. Obrigada pela atenção – entregou o microfone ao orador e tornou a se sentar.
 — Palmas para minha mãe, Dona Ana Luísa Arantes e Lima.
 Prontamente atendido, a salva de palmas preencheu todo o recinto.
 — Dou por encerrada esta reunião de posse. Amanhã quero uma reunião com toda a chefia no primeiro horário. Isto te inclui mamãe – olhou para a mulher. — Estão dispensados para a degustação.
 As pessoas se levantaram e se dirigiram para a área em que os aperitivos seriam servidos, menos Paola, que se manteve sentada. Ao ouvir o nome da mulher, sentiu seu estômago gelar. Conhecia a coluna que ela redigia e era, de fato, grande admiradora.
 Todas as terças e quintas estava lendo o que Ana Luísa escrevera, fascinando-se ainda mais pelo assunto abordado e a forma que ela expunha sua opinião. Deixou que seus colegas saíssem para ter a oportunidade de trocar meia dúzia de palavras com a executiva e ao notar que ela e o filho desciam as escadas do palco, não perdeu a oportunidade e se aproximou.
 Getúlio alargou o sorriso ao notar que aquela bela mulher se aproximava, estendendo-lhe a mão. Ao seu contragosto, foi recíproca.
 — Você deve ser a Paola, estou certo? – Ela confirmou. — Sua fama é grande senhora Biancchi.
 — Senhorita – corrigiu. — Sou sua diretora executiva, se, assim, ainda quiser.
 — Mas é claro que sim Paola. Soube maravilhas ao seu respeito – mediu a mulher de cima a baixo, deixando seu tom de voz um tanto cafajeste.
 — A senhora é redatora da coluna “Ao Trabalho”, certo? Tenho extrema admiração pelo seu trabalho e será uma honra tê-la aqui – ignorou o rapaz e manteve seu foco onde queria, oferecendo a mão para a elegante mulher.
 Evitando qualquer desconforto, Ana Luísa sugeriu que o filho fosse primeiro:
 — Pode ir querido. Daqui a pouco eu chego ao saguão – o jovem homem se retirou, acatando o pedido de sua mãe. — O que deseja falar comigo... Paola, não é?
 — Sim, Paola Biancchi. Primeiramente que você tem a voz maravilhosa e é ainda mais bonita pessoalmente que na foto, de saturação distorcida, da coluna do jornal – sorriu sedutora.
 A outra mulher sorriu com o regalo, encabulando-se.
 — Obrigada, senhorita Biancchi.
 — Por favor, não tenha tanta formalidade comigo. Me chame de Paola, apenas.
 — Então, querida, me chame de Ana Luísa.
 Trocaram um sorriso cúmplice e emendaram uma conversa sobre negócios. Se quisesse, Paola poderia conquista-la num piscar de olhos, mas Ana Luísa não era mulher de conquistas de uma noite. Queria conversar com ela, sair e, para isso, precisaria conquistar sua confiança.
 E foi nesse ritmo de conversa e descontração que elas se juntaram aos outros. Biancchi falava animadamente com seus colegas, mesmo que, ora e outra, seus olhos estivessem em Ana Luísa. A mãe de Getúlio estava distraída conhecendo a chefia da empresa e não reparou nas olhadelas furtivas da diretora.
 Ao fim do evento, Ana Luísa se despediu do filho e disse que iria se retirar por estar cansada. Não gostava daquele tipo de coisa e já tinha ficado tempo suficiente ali. Paola também estava cansada e decidiu se retirar e foi para o estacionamento, o que a consultora não fez, uma vez que foi para a porta principal do prédio. A diretora pegou seu carro e seguiu seu caminho, avistando a colunista de pé à porta do edifício.
 Deu um sorriso espontâneo e parou o carro, buzinando imediatamente para chamar a atenção de Ana Luísa. A mulher de fino terno olhou assustada para o carro, tranquilizando-se no instante que viu quem era.
 — Quer uma carona? – Questionou Paola.
 — Já pedi um Uber. Obrigada – agradeceu gentilmente.
 — Prefere ir com um estranho que ir com uma pessoa que você verá todos os dias? – Fez um bico dramatizando. — Por favor, eu insisto.
 — Não quero incomodar.
 — Jamais será um incômodo tê-la em meu carro.
 Ana não é de se constranger com facilidade, mas o elogio a deixou levemente corada, principalmente por ter constatado um duplo sentido encoberto.
 — Tudo bem. Já que insiste – deu-se por vencida e entrou no veículo.
 — E para onde devo leva-la, Vossa Majestade? – brincou com a outra.
 — Por favor, já te pedi para me chamar apenas pelo meu nome.
 — Tudo bem, Ana Luísa, mas não é por isso que você deixa de ser uma rainha – sorriu e deu partida no carro.
 Para desconversar, a mais velha apenas respondeu a pergunta, anteriormente, feita.
 — Eu moro em Vila Velha, em Itaparica. Por isso não queria te incomodar.
 — Eu também sou canela verde. Moro lá também, então é caminho – explicou, mantendo seus olhos no trânsito. — Daqui até Vila Velha vai demorar um pouco, quer ouvir uma música ou conversar?
 — Por que não os dois?
 — Okay – alargou o sorriso insistente de seu rosto.
 Ligou o som em sua playlist de músicas relaxantes e antes mesmo que ela puxasse assunto, Ana Luísa o fez:
 — Há quanto tempo trabalha na empresa? – questionou ao tempo que procurava algo em sua pequena bolsa de mão.
 — Vejamos, eu tenho 33 anos e fui para a B.P.C. aos meus 26 anos, logo após ter concluído meu mestrado. 7 anos, então.
 — Nossa! Pensei que você fosse mais jovem. Tem carinha de ter uns 25 anos – Paola riu.
 — Só tenho esse rostinho jovial mesmo. Tenho mais experiência que aparento.
 — Não duvido do seu profissionalismo.
 — Mas não me refiro apenas ao profissional – aproveitou do sinal vermelho do semáforo para medir a mulher de cima a baixo.
 A colunista sentiu certa inquietação, principalmente perante o olhar de sua acompanhante, um tanto quanto penetrante. Sorriu timidamente e mudou o assunto.
 — Como que, depois de tantos anos trabalhando com meu ex-marido, você não está em um cargo mais elevado, como a vice-presidência?
 — Eu almejava a presidência, mas Antenor fez o favor de deixar seu filho no cargo. Não quero a vice-presidência; não mais. Seria o fim trabalhar com o Getúlio e não me leve a mal, Ana Luísa, mas seu filho parece ser só mais um mimadinho. Já é difícil aceitar que uma pessoa menos instruída que eu seja meu chefe – voltou a dirigir com o sinal verde.
 A mais velha gargalhou gostosamente e descontraída.
 — Você não está tão errada. Meu filho levaria o negócio para o buraco sozinho, por essa razão ele me chamou e fez daquela forma ridícula porque sabia que eu não aceitaria. Não gosto daquele lugar. Ou seja, ele é muito mimado. Antenor estragou meu filho. Sempre fez suas vontades e nunca o cobrou de nada e eu era a mãe megera. A chata que cobrava e colocava de castigo. Agora, nessa altura da minha vida, terei de me preocupar com as decisões de Getúlio, que se tornou tão galinha quanto o pai.
 — Vejo que não é uma daquelas mães que acoberta os filhos.
 — Eu não! Não concordo com muita coisa que meu filho faz e quer fazer. Se ele me quer na empresa, terá de ser do meu jeito.
 Paola sentiu um frio percorrer sua espinha e seus pelos se eriçarem. Além de linda, Ana Luísa tinha aquele “q” a mais. Que seduz e prende. Vicia.
 Já sobre a Terceira Ponte, que conecta Vitória a Vila Velha, a diretora Biancchi questionou:
 — Se casou novamente, Ana?
 Com os olhos fixos ao Convento da Penha, a mulher respondeu:
 — Deus me livre! De dor de cabeça, já chega as que eu mesma tenho – olhou para Paola e continuou: — E você? Está comprometida? Claro que sim. Linda desse jeito.
 — Claro que não! – Respondeu aos risos. — Estou esperando alguém realmente interessante.
 Mais uma vez mirou a mulher, que sorriu gentilmente. Ela já tinha percebido os flertes da moça há algum tempo, mas preferiu ignorar e dizer a si mesma que era coisa da sua cabeça. Jovens são gentis, mas até onde vai a gentileza de alguém?
 — Mora onde aqui em Vila Velha?
 — Ed. Costa Fortuna, em Itaparica.
 — Que chique. Um dia eu serei da realeza também – riu.
 — Não diga bobagens, moro em um apartamento de dois quartos e o espaço nem é grande.
 — Mas mora perto da praia. Com certeza vale mais que minha casinha na Barra do Jucu – as duas riram e Paola pode se agraciar mais uma vez da gargalhada maravilhosa de Ana Luísa.
 — Que risada gostosa – disse sem pensar.
 Saiu de forma tão espontânea que a mais velha agradeceu:
 — Obrigada.
 — Chegamos – Paola saiu do carro e deu a volta, abrindo a outra para Ana Luísa e lhe estendeu a mão.
 — Hm, que cortês!
 — É o mínimo que uma mulher como você merece – ficaram em silêncio por alguns segundos e Paola continuou. — Foi um prazer Ana Luísa.
 — Para mim também foi um prazer Paola – deu um passo à frente para se despedir.
 Deram os famosos dois beijos no rosto, ao menos a senhora Arantes e Lima, pois Paola deu um beijo no rosto e o outro, mais lento que o normal, foi depositado no canto da boca da mais velha, onde ficou marcado com seu batom.
 Biancchi sorriu e voltou para o seu veículo, um Jeep Renegade preto, e deu partida, deixando uma Ana Luísa atônita com a ousadia daquela jovem. E ela, de certo modo, gostou disso. m 

Comentários

  1. Você não tem noção de como eu estava com saudade dessa história <3
    Agora que estou com um tempinho livre, vou tentar ler todos os capítulos novamente.

    Cara, que falta a Paola me fez kkkk Pelo amor de Afrodite, não faça um hiatus enorme novamente #pas

    Beijo :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Aaah, que bom que tirou um tempo e me achou aqui. Eu fico tão feliz quando as pessoas dizem sentir saudade das minhas histórias que beira o lúdico. Obrigada por estar aqui 💜

      Excluir

Postar um comentário

Deixe seu comentário e/ou uma sugestão ;)