Capítulo VIII - Uma pitada de ciúmes


Desde a tórrida e apaixonante noite que Ana e Paola tiveram, passaram-se quatro dias e era finalmente sexta-feira. No decorrer da semana, Paola sempre visitava a sala de consultoria ou chegava minutos antes do horário de almoço para trocar alguns beijinhos sadios com a mãe de Getúlio. No entanto, ela o fazia quando lhe sobrava um tempo, do contrário, resolvia os problemas da Belchior Propagandas e Comunicações em primeiro lugar.
Na quinta-feira, não teve tempo de ver sua querida consultora, tampouco almoçar. O dia foi tão corrido que Ana foi embora e Paola ainda ficou trabalhando, apenas trocaram mensagens e conversaram por telefone à noite. Logo, na sexta-feira de manhã, a diretora Biancchi estava ansiosa para vê-la. Chegou à empresa, bateu seu ponto e foi até a cozinha. Serviu duas xícaras de café e foi para a sala da colunista.
O barulho da porta atraiu a atenção de Ana Luísa, que se deparou com uma Paola desajeitada tentando abrir a porta e equilibrar a bandeja que continha as xícaras de café e um jarrinho com uma única margarida branca. Fez menção de se levantar, mas a diretora a repreendeu:
— Nada disso. Pode ficar sentadinha aí – disse e empurrou a porta com o pé. — Prontinho – colocou a bandeja sobre a mesa e entregou a xícara para Ana. — E essa florzinha é para você.
Ana Luísa pegou o pequeno jarro de vidro e cheirou a flor branca, sorrindo em seguida.
— Sabia que as margaridas são minhas flores favoritas?
— Sério? Eu só achei que elas combinassem muito com você quando passei perto da floricultura aqui do lado.
— As margaridas brancas têm um significado muito bonito, sabia? – comentou, levando a xícara de café à boca.
— Não. Como que você sabe dessas coisas? – estava visivelmente curiosa.
— Minha mãe sempre gostou de flores e, quando éramos crianças e bem pobres, ela tinha uma banca onde vendia arranjos, vasos e tudo que fosse relacionado à jardinagem.
— E qual o significado das margaridas brancas?
Ana Luísa pegou a flor, cheirou-a e, com ela próxima à boca – como se a beijasse –, olhou para Paola e respondeu:
— Você é tudo para mim.
Paola ficou olhando a colunista por um tempo, enquanto ela sorria, admirando a pequena e delicada flor. Quanta ironia do destino ela comprar e dar uma flor para Ana que justamente significava o que ela queria dizer, mas não tinha coragem. Ela sorriu meio sem jeito para a consultora e, finalmente, disse:
— Até que eu acertei na escolha da flor – tomou seu café e depositou a chávena vazia sobre a bandeja.
Ana apenas sorriu e recolocou a margarida no jarrinho.
— Gostou do café que eu fiz? – arguiu pomposa.
— O café que a Lúcia fez está ótimo – brincou com intuito de irritar Paola, uma vez que ela sabia da verdade.
— Isso é uma calúnia! – fez bico. — Quem te contou? – perguntou e se deu por vencida.
— Eu conheço o café dela – riu da expressão atônita de Paola.
— Okay, dona degustadora de café. – Levantou-se e rodeou a mesa de Luísa. — Mas, eu não vim aqui para que você me apresentasse seus dotes cafeísticos. Vim por que eu tô morrendo de saudade – ameaçou se sentar no colo da consultora, mas parou para ouvi-la.
— Mas, foi só um dia – Ana respondeu.
— Tudo bem. Posso ir embora.
Paola começou a se afastar, mas a mão de Ana Luísa a segurou e a puxou para si, fazendo-a se sentar em seu colo.
— Não foge de mim – sussurrou.
— E como posso? Você me prende de uma forma tão gostosa que isso se torna impossível – roçou os lábios aos de Ana e, por fim, beijou-a.
A consultora apertava a cintura da diretora Biancchi com uma das mãos, enquanto a outra alisava sua perna desnuda, ora e outra, arranhando-a lentamente. Desde aquela noite, passou a se perguntar qual seria o gosto de Paola e a imaginar como seria ter sua boca na vulva da diretora. Esse estado de excitação fez com que o beijo se intensificasse e o calor aumentasse.
Paola retirou a blusa branca acetinada de Ana Luísa de dentro da calça e subiu a própria mão para acariciar os pomos delicados que ela tinha. Em resposta, a colunista enfiou sua mão dentro da saia lápis preta da diretora e roçou seus dedos sobre a calcinha fina que a outra usava. Paola suspirou profundamente e desfez o beijo, dando mordidas no maxilar da consultora até seu pescoço, onde deu um beijo molhado puramente lascivo.
A senhora Arantes e Lima não se reconhecia mais; gemia desavergonhadamente para a parceira e sentia prazer por fazer isso. Sentia prazer por se sentir devassa com Paola.
Pouco antes de Paola pensar em retirar a camisa social da mãe de seu chefe, o ramal de Ana tocou, forçando-as a cessarem as carícias. Era Alice, a secretária de Getúlio.
— Pode falar Alice – disse após ter acionado o botão do viva voz.
— Seu filho pediu para avisar que está levando um novo contrato para que a senhora analise.
— Ele já saiu?
— Já sim.
— Obrigada, Alice. – Encerrou a ligação. — Acho que teremos de parar por aqui – beijou Paola novamente.
— Desse jeito vai ser impossível – segredou após finalizar o beijo. — Se der, vá a minha sala mais tarde.
— Tudo bem.
Paola se levantou e ajeitou a roupa. Ana Luísa fez a mesma coisa, porém, fez de qualquer jeito, ficando amarrotada e com partes da camisa fora da calça. Foi com a diretora até a porta e se despediu com um beijo rápido; neste instante, Getúlio chegava e pensou ter visto algo, mas, em seguida, Paola saiu.
O presidente da B.P.C. olhou para sua mãe aterrorizado, pois, em toda sua vida, era a primeira vez que a via em desalinho.
— O que a Paola queria aqui? E por que você está toda amarrotada? Com a blusa de fora? – parou um tempo e pensou, para dizer: — Mãe, eu pensei ter visto você beijar a Paola, mas acho que isso está fora de questão. Você jamais faria isso.
— E por que não? – ignorou todas as perguntas e focou em arrumar sua vestimenta.
— Porque você é mãe, já tem certa idade e ela é mulher. Você não gosta de mulher – afirmou convicto.
— Quem te disse isso? Eu ser mãe não impede que eu tenha uma vida sexualmente ativa. Eu ter “certa idade” – fez aspas com os dedos – menos ainda. Saiba, meu amor, que sua mamãe é bem ativa.
— Por Deus, mãe, eu não preciso saber disso – disse fazendo cara de nojo, o que deixou a mulher irritada. — Ela ainda é mulher.
— E o quê que tem?
— Diz que é mentira...
— Por que eu o faria?
— Você ficou senil? – gritou, jogando o contrato no chão. — Perdeu a vergonha na cara? Então essa Paola é dessas sapatão desgraç...
Ana Luísa não o permitiu terminar a frase. Acertou-lhe uma bofetada no rosto com tanta força que a própria mão doeu.
— Você me respeita, seu merdinha. Eu sou sua mãe, não sou seus coleguinhas. Não foi essa a educação que eu te dei. Não foi assim que te ensinei a tratar as pessoas. Tudo o que eu te ensinava em casa, você desaprendia na casa do seu pai?
Getúlio ficou em silêncio.
— Responde, Getúlio! Agora! – exigiu.
— Não, senhora.
— Não quero saber de você falando gracinhas para a Paola. Você não é criança pra ficar de pirraça por que perdeu um doce. E você não tem nada a ver com a minha vida. Se eu trabalho aqui hoje, é para te ajudar. Apenas.
— Tudo bem – baixou a cabeça.
— Peça desculpas. Não sou seus amigos e não vou tolerar isso!
— Me desculpe por ter falado aquelas coisas – disse não muito feliz.
— Tudo bem. Agora recolha essa papelada e deixe em minha mesa que vou analisar. Mais tarde eu vou a sua sala para discutirmos. E não se esqueça de chamar o Bertamani para estar lá também – referir-se ao advogado da empresa, Francisco Bertamani.
Ele fez o que a mãe disse e se retirou. Getúlio não estava nada feliz com a forma que sua mãe o tratou por causa de Paola. Estava disposto a fazer um inferno da vida da diretora, uma vez que não podia demiti-la, pois os sócios a adoravam.
O restante do dia passou razoavelmente rápido e como prometido, Ana Luísa se dirigiu para a sala de Paola. Mal pôs os pés no hall da sala da diretora e Lara, a secretária, pronunciou-se:
— Dona Paola não pode atender agora – disse com ar de risinho. — Ela tá com uma visita.
Uma interrogação brotou sobre cabeça de Ana Luísa.
— Visita? Aqui?
Lara já ia responder solícita, para não dizer fofoqueira, quando a porta foi aberta por Paola, que estava acompanhada de Cibele. A amiga da diretora estava agarrada a sua cintura, gargalhando sobre o assunto do qual falavam, com Paola terminando de contar a história.
Percebendo a cara de poucos amigos de Luísa, Lara resolveu se pronunciar:
— Dona Paola, a dona Ana Luísa quer falar com a senhora.
Apenas neste instante que a diretora a viu.
— Oi, Ana. Me espera aqui por 2 minutos. Vou só levar a Belinha ao elevador e já volto.
— Vou esperar na sua sala.
— Tudo bem. Vamos? – perguntou à amiga.
— É ela? – a designer perguntou e Ana ouviu.
— Fala baixo, Cibele. – Olhou para trás e não viu mais sua paixão. — Não vai estragar o negócio, sua linguaruda.
Ana Luísa estava inquieta. Então, Paola estava apenas a usando como brinquedo? Não, não poderia ser isso. Tentou não pensar no assunto e esperar por Paola, mas, assim que a viu passar, bombardeou-a de perguntas:
— Quem era aquela mulher? Você está me fazendo de idiota, diretora Biancchi?
Paola riu. Gargalhou da expressão irritada da consultora.
— Não ria de mim.
— Você fica uma gracinha enciumada – disse ao passo que se aproximava.
— Não estou com ciúmes. Apenas não quero ser feita de trouxa.
— É ciúme, sim. – tentou abraça-la, mas ela não deixou. — Minha vida, Cibele é minha amiga de infância e ela não gosta de mulher. Ela é hétero. Veio aqui apenas para me fazer um favor.
— Hmf – bufou.
— É verdade, meu amor.
Ana Luísa olhou surpresa para Paola. Isso a desarmou completamente e a fez se derreter.
— Eu sou seu amor?
— Bem provável que sim – abraçou-a e lhe deu um selinho.
— Você quer ir almoçar amanhã comigo na casa de mamãe? – questionou sorrindo.
— Ai, minha vida. Amanhã não dá. Vou ter de sair com a Cibele.
— Cibele, Cibele, Cibele. Quando resolver seus assuntos com essa Cibele, você me procura – disse saindo da sala.
— Ana. Ana – chamou-a, mas a colunista saiu mesmo assim. — Ana, volta aqui.
Paola saiu atrás de Ana Luísa tentando acalmar sua amada, enquanto Lara ria da recepção assistindo tal cena.


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