Capítulo V – Um bichinho chamado paixão


A sala do apartamento de Ana Luísa estava pequena para as duas mulheres. Assim que passaram pela porta da residência e a colunista a trancou, Paola a puxou pelo braço e a empurrou contra a porta amadeirada. Ana soltou um grunhido e envolveu os cabelos da nuca da mais jovem, puxando-a para um beijo desesperado e, aos tropeços, caminharam para o sofá.
Paola deitou a consultora sobre o móvel macio enquanto a beijava. Ana Luísa, com suas mãos ligeiras, retirou a jaqueta que a diretora usava e lhe arranhou os braços levemente, causando frisson na mais jovem. A senhorita Biancchi parou o beijo e ofertou um sorriso para Ana, voltando a beijar o maxilar da mulher, descendo para o pescoço. Nesse tempo, puxou a saia longa da colunista e arranhou sua coxa alva, dando um leve aperto na região.
Percebendo aonde aquilo tudo iria chegar, Ana Lu se ergueu, ficando sentada ao lado de Paola.
— Eu te machuquei? – Referia-se ao aperto que havia dado na perna da mulher.
— Não, não é isso – arrumou os cabelos, exasperada.
— Então, o que foi?
Ana sorriu e olhou para aquela bela e jovem mulher. Um filme passou em sua mente, desde que se casou até o momento, e a única coisa que lhe vinha à mente era o fato de ter evoluído como ser humano e não ter se prendido à convenções.
— Nós estamos indo rápido demais, mocinha. Eu sou das antigas. Gosto de um cortejo – concluiu com uma faceta travessa.
— Desculpa, Ana. Eu não quis atropelar as coisas – disse cabisbaixa, olhando para o chão.
— Ei, não peça desculpas. Eu adorei tudo, mas eu não quero fazer algo que eu possa me arrepender, sabe? Não sou do tipo de pessoa que tem uma transa casual. Aliás, eu posso me considerar virgem novamente, pois não faço nada desde que me separei – disse pensativa.
— E isso tem quanto tempo? – Paola questionou visivelmente surpresa e curiosa.
— Quase dez anos – respondeu pensativa.
— Hmm, e seu corpo não pede por isso?
— Antes não pedia, até certa moça me deixar afogueada – proferiu passando a mão sensualmente sobre o maxilar de Paola e a puxou para um beijo.
— Eu queria muito ter esse seu autocontrole. Principalmente ao lado de uma mulher tão tudo como você.
— Tudo?
— Você, além de linda, é inteligente, elegante, charmosa, cheirosa e tudo mais. Eu poderia passar a noite toda listando tudo o que você é – fez um carinho no rosto da mulher mais velha e deu-lhe um selinho.
Ao ouvir a palavra noite, Ana se atentou para o horário e percebeu o quão tarde estava.
— Meu pai, já está tão tarde assim?
— Okay, okay – disse, Paola, levantando-se e espalmando o ar. — Já entendi que essa é a deixa para eu ir embora.
— Não é isso, querida. Combinei com mamãe que iria almoçar lá amanhã e ela me quer bem cedinho em sua casa – levantou-se e deu um beijo no rosto da mais jovem.
— Tudo bem – pegou a jaqueta do chão e andou até a porta com Ana Luísa logo atrás.
— Eu abro a porta. Assim você volta.
— Eu volto sempre que quiser – piscou para ela e a puxou pela cintura para a beijar. — Até segunda, senhora consultora.
— Até, diretora Biancchi – jogou um beijo no ar para Paola e a viu entrar no elevador para ir embora.
Ana Lu não quis nem pensar que sua impulsividade havia sido errada, pois, certo ou não, ela tinha gostado do que havia acontecido. Fechou a porta e foi para o banheiro. Definitivamente precisava de um banho frio.
Paola deu partida no carro e ligou o som para ouvir sua, tão estimada, Maria Rita. Sabia que sua noite com Ana Luísa seria maravilhosa, no entanto, mais uma vez, a colunista a surpreendeu. Esperava que fosse apenas uma noite descontraída e leve, para se conhecerem mais, porém, Ana a proporcionou a melhor noite da vida. Não esperava por aquele beijo.
E que beijo!
Como Ana beijava bem. Um beijo lento e ao mesmo tempo intenso, onde sua língua marota, ora e outra, lambia os seus lábios e os mordiscava, deixando a jovem Paola enlouquecida de desejo. Deixou as recordações de lado para dar atenção ao percurso, mas, sempre que parava em um sinal vermelho, ela se lembrava dos últimos minutos com a colunista em sua casa.
Ana tinha a mão esquerda apoiada à parede do banheiro, enquanto sua mão direita está sobre seu braço esquerdo, formando um suporte para sua cabeça. Sentia a água fria deslizar por sua tez arrepiada ao tempo que respirava profundamente. Fazia muito tempo que não conseguia controlar seus instintos, mesmo tendo suportado bem ao lado de Paola.
Tocou a própria intimidade e sentiu o quanto estava lubrificada. Seria errado fazer o que estava pensando em sua idade? Levou a mão até a própria barriga e a arranhou de leve, sentindo uma breve onda de prazer. Continuou descendo seus dedos até que estes chegassem a sua vulva para a tocar timidamente.
Deslizou o dedo sobre seu clitóris e o pressionou para sentir prazer, enquanto sua mente regressava ao momento que Paola a beijava com veemência em seu sofá. Mordia a própria boca com intuito de amenizar os gemidos, que saíam como grunhidos abafados à medida que seus dedos lhe proporcionavam estase.
Apoiou as costas na parede fria, fazendo seus pelos se eriçarem. Não se importou com o leve incômodo gelado, seu corpo já estava suficientemente quente para que um detalhe deste a importunasse em um momento tão íntimo. Quando seu orgasmo chegou, era em Paola que Ana Luísa pensava; precisamente, nas coisas que a jovem diretora poderia lhe proporcionar.
Sorriu e verdadeiramente se dedicou ao banho.
— Você está se tornando uma depravada, Ana Luísa – disse a si mesma.
Terminou seu banho e foi se deitar, agraciando-se de uma maravilhosa noite de sono.
Paola, ao pisar em casa, jogou-se no sofá e ficou pensando na mãe de seu chefe. Era difícil para ela admitir, mas Ana Luísa estava mexendo com ela além de pura atração física. Ficou triste por pensar em mais um final de semana longe da mulher, mas, o que poderia fazer se elas não tinham nada?
Tomou um banho e se deitou. Pegou seu livro e o leu até pegar no sono, dormindo com o objeto de leitura sobre seu peito.

A casa de dona Maria Odete estava animada como sempre. Beirava às 8hs da manhã quando a filha do meio chegou à casa da doce senhora. Dete, como a senhora era conhecida, foi receber a filha assim que a avistou passando pelo portão do quintal.
— Aninha, você demorou muito – disse ao abraçar a filha.
— Mamãe, ninguém chegou ainda. Pare de fazer drama.
— Isso é uma mentira. Sua irmã já está me ajudando.
— Nossa, Verônica dormiu aqui?
— Claro que não, bobinha. Rogério deixou ela aqui e foi lá naquele lugar de tiro— a senhorinha tinha o braço atado ao da filha enquanto entravam na casa.
— Eu acho muito estranho esse homem ir todo sábado nesse clube de tiro. Principalmente cedo assim. A Nica tem de abrir o olho – terminou assim que entraram na sala da residência.
— Falando de mim, irmãzinha? – Verônica perguntou ainda do corredor da casa, próxima ao portal que dava à sala.
— Que saudade! Você não vai mais lá em casa – reclamou com a caçula.
— Você sabe muito bem como é criar dois adolescentes e um bebê.
— Eu não sei que ideia essa de ter outra criança com seus filhos já quase adultos.
— Eu já disse que foi acidente. E eu amo minha Joaninha.
Enquanto conversavam, as três foram para a cozinha, onde passariam grande parte da manhã.
— Por falar nos seus filhos, os gêmeos vêm? – Ana olhou para a irmã.
— Disseram que iam pensar. Posso com isso? Não sei mais o que fazer para o Pedro e o Heitor tomarem jeito.
— Deixa as criança— a senhora de 77 anos disse. — Vejo muitas bocas falando e poucas mãos trabalhando.
As irmãs riram do sermão que levaram da mãe e começaram a preparar os pratos para o almoço.

Paola acordou faltando poucos minutos para as 12hs. Estava com preguiça demais para cozinhar e a solução mais viável era sair para comer ou pedir algo pelo ifood. Visto que sua vontade de sair era mínima, pegou o smartphone e vasculhou o aplicativo, porém, não achou nada que lhe enchesse os olhos. Tomou banho e se vestiu com uma regata preta sem sutiã, um short jeans solto e calçou seus chinelos. Pegou a chave do carro e se retirou.
Decidiu ir para um dos quiosques da orla de Itaparica comer um peixe frito, ou, talvez, uma porção de camarão. Do estabelecimento, ligou para sua amiga, Cibele, e a convidou. A designer morava ali perto, logo, não tardou a chegar. Cibele era negra, com o cabelo bem volumoso, com o corpo muito esguio. Apesar de ter a idade de Paola, aparentava ter, no máximo, 20 anos.
— E aí, perua, qual é a boa da vez? – Perguntou assim que chegou à mesa da diretora.
— Oi, Bele. Nem te vi chegar. Sua mãe melhorou do resfriado?
— Melhorou sim, mas você não me chamou aqui pra falar da dona Carmen. Desembucha, mulher. Eu te conheço e sei que pra você ficar distraída assim, a coisa é séria.
— Eu nem vou negar. Você me conhece melhor que eu mesma.
— Antes de você começar a contar seu testemunho, irmã – caçoou –, você já pediu algo pra comer? Eu tô morrendo de fome.
— Claro. Eu te conheço, traça – disse aos risos.
— Então pode começar o relato da sua história de vida, irmã – disse séria e isso fez Paola gargalhar.
Era impossível não rir das palhaçadas de sua amiga. Aproveitou o silêncio de Cibele e contou tudo o que havia acontecido e o que estava sentindo no momento.
— Iiih, Polete, lascou! – Riu da amiga.
— Ô, Cibele, não te chamei aqui para rir da minha desgraça não.
— Desculpa, amiga, mas é que te ver nessa situação é uma coisa inédita pra mim. Posso tirar uma foto dessa cara que você tá fazendo?
— Nossa, minha vontade é te mandar ir pra casa do caralho, sabia?
— Não sou bem eu que quero fazer uma visita pra casa dele, né? – Cibele se aproveitou a situação inusitada para tirar bastante sarro da amiga, que sempre se fez de durona para os sentimentos. — Desculpa. Falando sério agora. Essa mulher, ela sente algo por você?
— Eu não sei direito. Ela que me beijou; parece gostar de ficar comigo. Mas na minha situação, eu tenho medo de ser apenas uma curiosidade dela.
— Entendi. Por que você não chega pra ela e fala que tá apaixonada?
— Não quero a assustar. Tem duas semanas apenas que nos conhecemos.
— E você já tá assim?
— Se você gostasse de mulher, você iria me entender.
— Sei lá, Paola. Eu ainda acho que você deveria falar a verdade pra ela.
— Vou pensar.
Deixaram o assunto de lado assim que o pedido chegou. Ficaram conversando sobre as novidades e qualquer assunto que distraísse a diretora.

Ana Luísa se sentou ao lado da mãe à mesa e esperou que os outros também o fizesse para comer. O almoço foi bem animado entre os familiares, apenas a colunista que estava distante em alguns momentos. Seu irmão, Miguel Filho, percebeu os devaneios da mulher e passou a observá-la. Notou que ela olhava muito para o telefone, como se ansiasse ir embora o mais rápido possível.
O almoço, que era para comparecer toda a família, acabou contando apenas com os patriarcas e seus filhos.
Ana olhava para a sobrinha no colo de sua irmã tão perdida em seus pensamentos que não ouviu a pergunta do pai.
— Ana Lu, eu te fiz uma pergunta – perguntou o senhor de 83 anos.
— Hã? Pode repetir, papai?
— Você está muito distraída hoje, maninha – Miguel a provocou, mas Ana Luísa o ignorou para ouvir seu pai.
— Perguntei como Getúlio está.
— Está bem. Aprendendo a lidar com a empresa ainda, mas bem.
— Fiquei sabendo que ele tem uma diretora bem gostosa. Por que não me apresenta, Ana?
A colunista sentiu seu sangue ferver no instante em que ouviu a pergunta do irmão.
— Ela está comprometida, Miguel – mentiu completamente séria. Paola não estava comprometida. — E mais respeito ao falar de alguém.
— Você ainda defende? Aposto que ela virou diretora porque foi um dos casinhos do seu ex-marido.
Ana Luísa ficou de pé e bateu as mãos contra a mesa.
— Retire o que você disse, agora!
— Não fica nervosinha. É a verdade, maninha.
A mulher não pensou duas vezes. Pegou o prato de comida e jogou contra o irmão; por pouco, não acertou.
— Você ficou maluca?
— Fiquei maluca ao ter aceitado vir almoçar aqui, sabendo que você viria – retirou-se e caminhou em direção à saída.
Pegou sua bolsa no aparador da sala e passou pelo portal, pedindo um táxi assim que pisou no jardim. Sua mãe apareceu logo atrás da filha e a tocou nas costas.
— Desculpa o seu irmão, meu amor – pediu com a voz tremulante.
— Não, mamãe. Eu não vou desculpar o encostado do meu irmão. A senhora que tem de me desculpar pelo escândalo que dei, não ele.
Maria Odete sorriu para a filha e a abraçou. Não tinha o que desculpar. Sabia que Miguel tinha exagerado e que Ana Luísa não teria sangue de barata o suficiente para relevar alguma gracinha do irmão.
— Como que pode, um homem de 58 anos fazer umas palhaçadas assim?
— Homem é assim mesmo.
Antes de gerar qualquer contra-argumento, o táxi chegou, interrompendo a conversa das duas.
— Eu te ligo mais tarde, mamãe. Dê um beijo na Verônica e na Joana por mim. Diga ao papai que eu o amo – apertou sua mãe em um abraço e lhe deu um beijo no rosto. — Eu te amo.
— Eu também te amo, minha bonequinha. Não esquece de me ligar.
Ana fez um aceno positivo para a mãe e entrou no veículo. Queria apenas relaxar e esquecer todo aquele episódio estressante que seu irmão ocasionou. Onde já se viu? Falar aquelas coisas sobre Paola? Foi nesse momento que Ana Luísa percebeu que o buraco era mais embaixo e que seu ciúmes já começava a dar sinal de vida.

Comentários

  1. Aaaaa pelas Deusas, eu tava louca atrás da sua história. Meu amorzinho ela. Fiquei maluca quando não achei no spirit, pensei que tinha desistido, ainda bem que não. Morrendo de saudades dessas duas! 😍

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    1. Graças a deusa que me achou aqui ^_^
      Quase que eu não reposto ela, mas pensei melhor e decidi publicar aqui.

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  2. Deus me livre de um irmão desses, credo. Ana Lu, princesinha sensata por ter ido embora <3

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    1. O mais triste é que existe tanto homem assim, principalmente parentes. 😕

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