Capítulo IV – Fora dos padrões



O dia foi extremamente estressante para Ana Luísa depois que Paola foi para casa; nem saiu de sua sala para almoçar. Pediu comida e ali mesmo se alimentou. Estava com sua coluna atrasada devido a sua falta de foco; tinha mil coisas para fazer na empresa e seu filho não a ajudava tomando decisões sem antes consultá-la.
Descobriu que o filho perdeu um contrato milionário de uma marca de roupas por assediar a dona da grife. Não entendia o motivo de seu filho ser assim, como o pai, sendo que ensinou tantas vezes a respeitar para ser respeitado, mas, pelo visto, entrou por um ouvido e saiu pelo outro.
Agora, estava no telefone com Isadora Venturini para tentar reverter a burrada que seu filho tinha cometido e fechar o contrato.
— Prometo que isso não ocorrerá novamente.
Gosto de mulheres de fibra, Ana Luísa, mas seu filho me decepcionou e se mostrou um péssimo gestor de negócios. Temo fechar o contrato e a campanha não sair como eu desejo.
— Não se preocupe com isso, Isadora. Eu mesma me responsabilizarei por sua campanha publicitária com auxílio da nossa diretora executiva, Paola Biancchi. Ela é a chefe da produção e gerência minuciosamente todo o trabalho – explicou torcendo que a mulher cedesse.
Eu conheço a fama da Paola. Foi pelos trabalhos maravilhosos que ela fez que me interessei pela BPC – a mulher ficou um instante em silêncio, deixando Ana ainda mais nervosa. — Se você me garante assumir o risco e que será a Paola liderando minha campanha, posso reconsiderar minha decisão.
— Então, nós temos um acordo – finalizou com um sorriso vitorioso. — Prepararei a papelada eu mesma e quando o contrato estiver pronto, entro em contato para que possamos nos reunir e ver se deseja fazer alguma alteração. Tudo bem?
Tudo ótimo. Nos vemos em breve, Ana Luísa – finalizou e encerrou a ligação.
A colunista finalmente pode respirar aliviada. Conseguiu recuperar o contrato perdido por Getúlio que estava praticamente fechado com a concorrência. Teria de ter uma conversa com ele, pois esta não era a postura de um presidente para com seus clientes. Mais tarde iria a uma reunião no jornal onde tinha a coluna e não voltaria mais à BPC. Estava ansiosa para o jantar com Paola e, com certeza, tiraria o tempo restante para se aprontar.
Paola passou toda à tarde tranquila. Tinha tudo arquitetado em sua mente e torcia para que sua convidada gostasse do que havia preparado, pois estava longe do que Ana Luísa estava acostumada e/ou estivesse esperando. A diretora Biancchi era assim, longe de ser convencional, por este motivo fez sucesso em sua carreira.
Estava deitada na rede que tinha na varanda de sua casa com um livro nas mãos, Filhos do Éden – Paraíso perdido, tentando se concentrar na leitura, mas seu foco estava em um belo par de olhos verdes  no sonho que tivera com a dona destes.
Pensar em Ana a fazia querer sorrir e não mais parar. Isso, de certo modo, assustava Paola, que nunca se apegou fraternamente a ninguém e agora se pegava suspirando ao se recordar de um sonho. Tinha sempre a necessidade de mais com aquela mulher, mas também havia o receio de colocar a carroça na frente dos burros e botar tudo a perder. O lado bom de ser cuidadosa era experimentar cada nova sensação e apreciar cada reação, fosse de surpresa ou felicidade, de Ana Lu.
Deixou o livro na mesinha ao lado e ficou recordando tudo o que já viveu, se assim podia dizer, com a colunista; desde terem se conhecido, os almoços e a manhã daquele mesmo dia. Acabou pegando no sono e acordou apenas no horário de se arrumar.
Ana Luísa chegou em sua casa às 17hs e 53min. A reunião demorou mais que o previsto por ela e agora sentia que tinha de se apressar ou se atrasaria. Deixou sua bolsa em cima do sofá e correu para o banho. Queria muito usar a manta mapuche que havia ganhado de Paola, mas o calor infernal de Vila Velha não a permitiria isso.
De cabelos molhados, correu para seu quarto enrolada numa toalha vermelha e desta forma começou a se maquiar e hidratar toda sua pele. Como não tinha ideia de como seria o local escolhido por Paola, optou por colocar uma saia longa clara de estampas azuis, uma regata branca de cetim por dentro da saia, um colar de corrente com uma pedra azul. Em seus pés, uma sandália rasteirinha de couro. Secou os cabelos e os deixou sensualmente bagunçados; e para terminar de se aprontar, passou seu perfume e pegou uma carteira de mão.
Olhou para o relógio e marcava 19hs e 26min, decidindo descer e esperar pela jovem Paola. Quando estava quase chegando ao hall de entrada do prédio, sentiu seu celular vibrar. Sorriu alegremente ao ver que era uma mensagem de Paola avisando que tinha chegado. Realmente ela era bem pontual.
A consultora parou diante a porta do motorista e bateu no vidro levemente. Surpreendeu-se ao ver que a diretora estava vestida de forma descontraída. Calça jeans, salto alto, uma camiseta rendada e uma jaqueta preta por cima. Totalmente diferente da Paola Biancchi que todos conheciam na empresa; sempre séria, sempre formal.
— Você está maravilhosa – Paola disse ao sair do carro.
— Obrigada. Você também está linda – sorriu encabulada, mas logo se recuperou e voltou a falar: — Em que lugar vai me levar?
— Hm, surpresa. Venha – deu a volta no veículo e abriu a porta do carro para sua acompanhante entrar.
— Eu já disse isso, mas adoro você ser tão cortês. Me sinto querida.
Paola parou atrás de Ana, quase roçando seu corpo ao da mulher, e disse:
— Você é mais que querida, Ana Luísa. Muito mais... – quase em um sussurro rouco.
Sem saber o que responder e reagir, a colunista sentou no banco do carona ao tempo que sentia os efeitos daquela frase sob seu corpo. Cada fio de pelo do seu corpo criou vida e seu coração quase parou. Teve de respirar fundo para se acalmar.
Paola mordeu o lábio inferior e também entrou, dando partida no carro.
Passaram todo o trajeto conversando e dando risadas. Paola evitava falar mal de Getúlio para Ana Luísa, mas era impossível não o fazer ao recordar da viagem que ele a fez fazer. Ana apenas parou de rir quando percebeu que estavam entrando no estacionamento do Shopping Boulevard, olhando no mesmo instante para Paola. Não perguntou nada, apenas seguiu a mais jovem.
Diante de tantos olhares para Ana Luísa, a diretora teve de se controlar para não reclamar ou tomar alguma atitude que pudesse assustar sua convidada. Mas, para evitar que continuassem, ela ofertou o braço para a consultora, que achou muito gentil por parte de Paola e aceitou, envolvendo o seu braço ao dela. Até pareciam um casal.
No segundo piso do shopping, Ana não conseguiu conter sua curiosidade e novamente questionou:
— Então, o que vamos fazer?
— Primeiro, vamos para o Ilha do Caranguejo. Gosta de moqueca?
Ana apenas respondeu com um aceno positivo e um sorriso.
— E depois?
— Depois é surpresa. Você deverá abrir sua mente, viu? – Disse com ar de suspense.
— Okay – respondeu ao riso.
A mãe de Getúlio estava completamente curiosa, porém, não queria estragar tudo o que Paola havia preparado.
Enquanto aguardavam o pedido chegar, conversaram sobre diversos assuntos, entrando em assuntos mais pessoais.
— Por que não se casou de novo?
— Como disse da primeira vez, de dor de cabeça, bastam as minhas. Mas a verdade é que eu desacreditei no amor e nos homens.
— Tão nova e desacreditada no amor assim? Pode não.
Ana Luísa acabou rindo pela forma que Paola falou.
— Sabe, Paola, eu me casei porque gostava do Antenor, mas foram tantas decepções que acabei assim. Sozinha na minha idade.
— Você fala da sua idade como se fosse uma vovozinha. Está bem longe disso.
— Você que é muito gentil. E você, por que está sozinha?
— Eu sou bicho solto, sabe? Estava esperando aparecer alguém que virasse minha vida de cabeça pra baixo.
— Estava? Não está mais?
— Digamos que a vida tem me sorrido ultimamente – fitou Ana Luísa com tamanha intensidade que deixou a mulher desconcertada e inquieta.
— Parece que nossa comida chegou – desviou o assunto, como sempre fazia quando ficava constrangida ou com vontade de tomar atitudes impulsivas.
Após alguns minutos de silêncio, Paola perguntou:
— Já sentiu vontade ou curiosidade de beijar uma mulher?
Aquela pergunta pegou a colunista de surpresa. O que deveria responder?
— Talvez um pouco de curiosidade – disse medindo as palavras. — Mas nunca tive essa oportunidade.
— Eu poderia criar uma. É só você querer – disse rindo.
Ana Luísa nunca sabia dizer quando a diretora estava falando sério ou apenas brincadeira. Paola sempre tinha um jeito de moleca para falar esse tipo de coisa e isso era um dos pontos que chamavam a atenção da consultora.
— Deixa de bobagens, Paola – exibiu seu mais sincero e lindo sorriso.
— Você tem um sorriso tão lindo que me faz perder a...
— Estão gostando da comida, senhoras? – Questionou o garçom, interrompendo a frase de Paola.
— Está uma delícia. Desde o ambiente à comida – a senhora Arantes e Lima respondeu.
O homem fez um aceno positivo e se retirou.
— Odeio quando esse tipo de coisa acontece.
— É o trabalho dele, Paola. Sei que o momento não foi apropriado, mas deve ser instrução do chefe. Perdoa o coitadinho.
— Você é muito boazinha. Precisa elevar seu nível de maldade.
— Eu posso ser mais má do que você imagina – disse com um olhar sugestivo.
Paola não queria, mas acabou imaginando coisas inapropriadas após ouvir tal afirmação. Olhou de volta para a mulher e quase a despiu com os olhos.
Pecado.
Paola queria cometer um pecado com aquela mulher e não se importaria de ter um lugar VIP no inferno por este motivo.
Quando acabaram de comer, beirava as 21hs e Ana não se aguentava mais de curiosidade, porém, continuou calada. Ela estranhou quando percebeu que Paola a conduzia para o setor de jogos.
— Não me diga que pretende me fazer jogar?
— Então eu não digo.
— Paola, eu sou horrível nessas coisas eletrônicas.
— Calma, eu te ensino. E mais, tenho certeza que você já foi nesses jogos de dança.
— Já, mas foi há décadas.
— Nunca é tarde para viver uma emoção. E você está claramente com medo de perder.
— Continua abusada, não é mocinha? Para te provar que está enganada, vamos fazer uma aposta. Quem perder terá de fazer o que a outra quiser.
— Tudo bem. Melhor de três?
— Sim.
Paola comprou as fichas do Pump it up e colocou na máquina. Ana Luísa sabia que iria perder, mas decidiu que por uma noite iria se esquecer de quem era, da idade que tinha e apenas aproveitaria a noite com a diretora Biancchi.
Não foi tão ruim. Conseguiu ganhar uma, mas perdeu na decisiva.
As duas se retiraram aos risos e foram para o estacionamento.
— Obrigada por essa noite maravilhosa, Paola.
— Não me agradeça. Nossa noite ainda não acabou. Você perdeu para mim no jogo e vou cobrar a aposta hoje mesmo.
— Então, o que vai querer de mim?
Se Ana Luísa soubesse que essa simples pergunta fez a cabeça de Paola girar e pensar em mil e uma possibilidades de respostas.
— Nada muito complicado. Apenas estender um pouco mais nossa noite. Quero dar uma volta na praia com você. A lua está tão bonita hoje que seria um insulto não a contemplar ao seu lado.
Depois de dez minutos e ter deixado carro estacionado perto do prédio da colunista, as duas estavam sentadas na areia olhando para a imensidão do mar em silêncio. Apenas aproveitando a presença uma da outra.
Como já estava um pouco mais frio, Ana encostou sua cabeça no ombro de Paola para se aquecer e se surpreendeu ao sentir a mais jovem envolver sua cintura com o braço. Fechou os olhos se sentindo completamente perdida e assustada. Tinha medo de ouvir seus desejos e mais medo ainda de não os ouvir e se arrepender.
Paola deu um beijo no topo da cabeça de Ana Luísa e começou a fazer carinhos em seus fios negros. Que vontade sentia de beijar verdadeiramente aqueles lábios e dizer tudo o que sentia, porém, não queria se precipitar e assustar a mãe de seu chefe. Seu maior medo era que Ana Luísa se afastasse por algo que ela fizesse.
Estava um clima gostoso de cumplicidade entre as duas, que foi lindamente estragado por um siri. O pobre bicho se sentiu ameaçado e atacou Ana Luísa, fazendo-a levar um grande susto e praguejar mil gerações do crustáceo. No susto, ela acabou caindo sobre Paola, fazendo a diretora ter uma crise de risos.
— Você ri por que não foi a sua perna que ele atacou – disse brava.
— Você ficaria mais brava se eu dissesse que estou com inveja do bichinho.
— Deixa de ser boba.
— Infelizmente, perto de você, eu só consigo ser uma boba – fitou a mulher e tirou-lhe uma mecha de cabelo do rosto. — Você é linda até mesmo quando xinga um siri.
Ana simplesmente sorriu.
— Você deve parar de mentir para me ver sorrir.
— Eu mentiria para te ver sorrir, se não fosse a verdade.
— Boba – dessa vez, foi Ana quem teu um beijo no canto da boca de Paola e se levantou. — Vou molhar os pés – disse e ergueu a saia para retirar as sandálias.
Paola apenas observou-a ir até o mar, imaginando se existiria uma mulher mais linda que ela. Parecia uma deusa aos seus olhos, como também uma demônia que a enfeitiçava a cada olhar.
Sentia-se privilegiada por conhecer um lado daquela mulher que poucos conheceram ou conheceriam. Sentia-se feliz apenas por estar ao seu lado.
Ana Luísa a olhou da água e sorriu, fazendo o coração da jovem diretora quase parar.
— Está com medo da água? – Ana perguntou sorridente.
— Aposto que está gelada.
— Medrosa – disse já perto da mais jovem. — Vamos?
— Temos mesmo de ir?
— Gosta tanto assim da minha companhia? – Estendeu a mão para Paola se levantar.
            — Você não faz ideia do quanto – respondeu com seu corpo quase colado ao da colunista.
            Biancchi percebeu o arrepio de Ana e isso a encheu ainda mais de coragem. Abraçou-a pela cintura e deu um cheiro em seu pescoço, seguido de um beijo. Ana Lu soltou um murmúrio prazeroso e se afastou um pouco de Paola.
— Você não deveria fazer essas coisas comigo?
— Por quê? – Sussurrou e arranhou a nuca da consultora.
— Porque eu posso perder o resto de juízo que me resta – disse com os olhos fechados.
— Então perca – roçou os lábios nos de Ana e se afastou.

Ana Luísa se sentia agoniada; inquieta e tentada. Vendo que Paola estava soltando sua cintura, segurou a gola da jaqueta da mais jovem e se entregou ao desejo, beijando os lábios doces de Paola com a Lua as abençoando.

Comentários

  1. não sei qual é o meu problema, mas eu não me lembrava que o primeiro beijo era assim aaaaa ♥
    Paola nem é gente, é anjo!

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    1. Foi bom que relembrou, não? Que reviveu tudo hino. Paola é tudo é mais um pouco 💜

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