Peccatum


Todos pensam — ou afirmam — que a cor do pecado é o vermelho, como cita Isaías. Digo-te: o pecado não tem cor; as pessoas o colorem daquilo que julgam conveniente e nessa história, o pecado é magenta.“Então peço que me deem grande satisfação de viverem em harmonia, tendo um mesmo amor e sendo unidos de alma e mente”. — Filipenses: 2-2.


***

Camila era vítima de diversas humilhações, simplesmente por não se encaixar no que a sociedade decretava — e ainda afirma — ser o certo; ser o padrão. Uma mulher presa em um corpo que diziam ser masculino. Um corpo que ela odiava e diversas vezes chorava, desejando o fim de tanta dor.
Júlia era sua colega de turma e sempre acompanhava as constantes chacotas que sua parceira de aulas sofria. Tinha vontade de gritar com aquelas pessoas; fazê-los entenderem que não era o Camilo e, sim, a Camila. Queria, quase sempre, abraçá-la e reconforta-la, mas a vergonha não a permitia. Não queria ser invasiva e constranger a moça de cabelo quase rosa, todavia sua cor era o magenta.
Mal Julia sabia que era justamente o que sua colega precisava; apenas queria ser reconhecida como quem realmente era, não uma aberração. Um ser abandonado por Deus, mas não pelos olhos da senhorita Sant'Ana. Essa a observava de longe e admirava tamanha coragem. Será que um dia, a menina Júlia, teria coragem de contar para seus pais que também não se encaixava no padrão? Nem mesmo ela sabia, visto que seus progenitores eram religiosos fervorosos.
Certa noite, ao término das aulas, Camilla caminhava em direção ao bicicletário, prendendo seus fios coloridos de qualquer forma — um nó, possivelmente — para que não ficassem em contato com seu rosto ao pedalar até sua casa. Foi nesse percurso que Júlia perdeu toda sua timidez e partiu em socorro da colega.
Um bando de homens e algumas mulheres — alunos da instituição — cercaram a jovem Gonçalves e enquanto alguns dos garotos a espancavam, o restante a ofendia verbalmente.
“Monstro, aberração, macho de saia. Você não é mulher, nunca será uma mulher. Sem vergonha, puta, piranha” e — o que mais doeu na garota — “piroco”. Era dessa forma que eles se direcionavam a ela, com ofensas, socos e pontapés.
A fúria e a vergonha, pelo o que aquelas pessoas estavam fazendo, consumiram seu espírito, injetando a coragem que Júlia Sant’Ana não tinha.
— Vocês não têm vergonha?! — gritou, empurrando as pessoas para abrir passagem. — Olhem o que estão fazendo! — puxou um dos garotos que puxavam Camila pela camisa e se posicionou diante à moça.
— Sai daí, Júlia, ou você vai apanhar junto! — Uma das "amigas" de Júlia gritou, ameaçando-a.
— Se isso os fará felizes, que batam em mim! — estufou o peito e abriu os braços, preparada para o que estivesse por vir.
Camila não sofreria mais nenhuma agressão. Nunca mais!
Os homens deram lugares às mulheres, para que elas terminassem o serviço. Segundo eles, bater em uma moça cisgênero* era errado, por outro lado, bater em uma moça transexual* não era errado; era até o certo a se fazer — segundo o que ditavam —, uma vez que eles afirmavam que ela não era mulher.
Nem Júlia, nem Camila foram poupadas.
Vendo a aproximação acelerada das garotas, a senhorita Sant’Ana desceu os braços e se abaixou, envolvendo seus membros superiores em sua vizinha de carteiras.
Camila não sofreria mais. Não se ela, Júlia, pudesse impedir.
A jovem de família religiosa queria evitar e poupar sua amiga de toda aquela exposição, de todo aquele sofrimento, mas como não podia livrá-la, ao menos aquela dor, seria ela que sentiria, mostrando que só, Camilla não estava. Quando se deram por satisfeitos, foram embora, deixando-as no chão, uma abraçada à outra.
Várias pessoas presenciaram o ato de violência e nada fizeram. Fingiram que nada viram.
Ao se sentir mais segura, sentindo a ausência de todos, Júlia se afastou um pouco, soltando-se dos braços da conhecida e, mesmo com o rosto inchado, sorriu e olhou para Camila.
— Você é louca?! Não precisava ter se machucado por mim. Eu sou só uma aberração. Um homem de saias. Não ouviu o que eles disseram? — limpou as próprias lágrimas misturadas ao sangue que suas narinas soltavam, ainda olhando para a parceira de sala.
Júlia alargou o sorriso ao máximo que pôde, chegando a quase fechar seus olhos, e disse:
— Você é a mulher mais linda que já conheci.
A jovem Gonçalves se permitiu chorar e abrir um sorriso. Era a primeira vez que tinha sido reconhecida por outra pessoa, além de sua avó, deixando-a extremamente feliz. Após esse fatídico dia, elas ficaram cada vez mais companheiras, cada vez mais amigas, cada vez mais unas. Anos mais tarde, já namoravam e, com o término do ensino superior, o pedido de Camila foi feito.
Pensaram que, do “sim” de Júlia em diante, todos os problemas e preconceitos, que enfrentaram na faculdade, não se repetiriam e as deixariam em paz. Contudo, foi exatamente a partir desse ponto que eles aumentaram cada vez mais.
Júlia conseguiu um emprego; Camila não. Entretanto sua esposa sempre a motivava e dizia que iria conseguir. À medida que o tempo se passava, as portas se fechavam, deixando Camila cada vez mais deprimida, sentindo-se uma inútil e sanguessuga, como a família de sua companheira gostava de proferir e gritar para todos.
Não tinha sido fácil para eles aceitarem que sua filha não queria se casar com o rapaz que tinham escolhido; que não queria se unir em matrimônio com homem nenhum. Não queriam compreender que a filha era lésbica, menos ainda por ela estar morando com uma mulher transexual. Aos olhos dos pais de Júlia, ela era uma pecadora e sua esposa um demônio, cogitando até a hipótese de leva-la a um padre, para — segundo eles — libertar aquela alma possuída.
Elas nunca conseguiram se esquecer do maldito dia que foram jantar com a família Sant’Ana.
Até certo momento, o silêncio cortante e constrangedor dominava o recinto, todavia, passou a mudar quando a senhora Sônia puxou assunto, perguntando como estava sua filha, engolindo o orgulho e tentando amenizar aquela situação constrangedora.
— Como vai o trabalho, minha filha? — limpou os lábios com o guardanapo de tecido e encarou a filha.
— Muito bem, obrigada — respondeu educadamente, bebendo um pouco de suco.
— E ele? — Osvaldo apontou para Camilla. — Ou ainda continua te sugando?
Camilla se encolheu e Júlia espalmou as mãos contra a mesa, com força. Pôs-se de pé e desafiou o pai, começando uma briga infindável. Não se sentindo bem com as ofensas, a mulher de cabelo colorido se retirou da mesa e se dirigiu à porta. Sua esposa a seguiu para irem embora, porém o patriarca da família estava no encalço da cria, gritando mais e mais atrocidades.
A filha do casal se virou, encarando-os e defendendo o ser que mais amava e mais sofria naquele instante. Sua esposa se encolheu, cobrindo os ouvidos com as mãos, tentando amenizar ao máximo ouvir tais coisas.
— Se quer viver em pecado com uma mulher, que seja com uma mulher de verdade e não com esse homem que se veste de mulher! — gritou, Osvaldo, faltando pouco agredir a própria filha.
— Ela é uma mulher de verdade! — rebateu irritada. —Vocês é quem são os monstros. Não me procurem nunca mais — decretou, auxiliando sua esposa até o carro.
Foram embora, sem olhar para trás.
Isso não impediu que telefonemas agressivos, carregados de ofensas, acontecessem, fazendo o casal desativar a linha telefônica. Aos poucos, estavam se isolando cada vez mais, a fim de sentirem-se seguras. O mundo as obrigava a viver como bichos afoitos, fugindo constantemente do caçador que as espreitava.
Alguns poucos meses mais tarde, Camila ainda não tinha conseguido um emprego. Estava em casa, triste e no auge de uma crise depressiva. Não queria mais viver, não queria ser um estorvo e muito menos um atraso na vida de Júlia.
Estava decidida! Hoje seria um dia diferente; o dia que ela faria algo para mudar essa situação.
~*~
Júlia passou pela porta com um lindo sorriso nos lábios, procurando por sua companheira. Tinha ótima notícia para Camila; notícia essa que seria o início de um futuro melhor.
— Camila, meu amor, tenho novidades! — Estranhou o silêncio, dando início a uma busca pela casa. — Camila, me responda! Não me deixe preocupada — lamuriava, tentando não pensar no pior.
Mais alguns passos e encontrou um bilhete sobre a mesinha de canto com os seguintes dizeres:

Seu coração parou por alguns segundos, arrancando em um bater desenfreado em seguida. Sabia que ela, Camila, não estava bem; estava em uma crise depressiva e cada vez se isolava mais por medo.
Com os olhos ardendo, clamando por um choro que ela recusava libertar, retomou a busca por sua esposa. Não encontrava Camila em lugar algum, já quase não conseguindo segurar as malditas lágrimas. Lembrou-se que de dentro do banheiro não dava para se ouvir um ruído sequer, direcionando-se para lá imediatamente e ao abrir a porta, seu mundo ruiu.
Caiu sobre os joelhos, não se importando com a dor. Dor física nenhuma seria maior que a de sua alma.
Camila estava sentada no chão do box, com os braços abertos, como se estivesse crucificada. Em seu dorso havia uma cruz, cortada desde seu peito até a barriga — na vertical e sobre seus seios — na horizontal. Não era um corte tão profundo, diferente dos cortes verticais de seus pulsos. Bem ao seu lado estava a navalha que ela tinha usado.
Júlia se arrastou até sua esposa, recusando-se a acreditar no que via; sofrendo, chorando como uma criança recém-nascida e ao chegar em seu destino, tomou sua parceira nos braços e gritou. Gritou para tentar expurgar aquela dor que queimava em seu peito, sendo em vão. Balançava seu corpo, com o de Camila sobre o seu, como se ninasse um bebê.
— Durma, meu amor ­— sussurrou com a voz vacilante. — Eu vou te proteger. — Fechou-se em uma realidade alternativa, onde sua esposa apenas dormia.
Pouco tempo depois, alguns vizinhos apareceram, graças aos gritos sôfregos de Júlia. Chamaram a emergência e a polícia, juntamente com o senhor e senhora Sant’Ana.
Não respeitaram a dor daquela mulher, que chorava com lágrimas silenciosas, tornando a situação um caos. Todas as perguntas feitas à Júlia foram respondidas com perfeição até o momento em que questionaram a morte de Camila.
— Ela estava dormindo no chuveiro. Uma danada! — Seu olhar era morte, sem brilho e suas vestes cobertas por sangue.
— Senhora, ela está morta — disse um guarda.
— Ela está dormindo! — Encarou o homem, com o cenho franzido, trincando os dentes.
Osvaldo tocou no ombro do policial e tomou a responsabilidade, providenciando tudo, enquanto sua esposa cuidava da filha, retirando-a de sua própria casa. Ela não soube o que fizeram com o corpo de Camila e isso foi o gatilho que faltava para debandar toda sua sanidade mental.
A dor a deixou louca.
Sem saberem o que fazer, o casal Sant’Ana internou a filha em uma clínica psiquiátrica, deixando-a a própria sorte; apenas mandavam o dinheiro para custear as despesas, mas nunca mais procuraram a filha. Alegavam ser castigo divino, por ela ter pecado contra as regras do Senhor.
A pobre mulher fora submetida a tratamento de eletrochoque e experimentos de medicamentos novos. Quem iria reclamar algo se ela estava abandonada? Era a cobaia perfeita.
Cada vez mais longe da realidade, ela se apegava àquela cor; não era rosa e nem vermelho. Forçava um pouco mais sua cabeça e um sorriso aparecia. Ah, sim, a cor é magenta.
A cor é Camila.
Júlia ainda aguentou um ano de maus-tratos e eletrochoque; cansada de lutar, abriu mão de seu único bem: sua vida.
Voltava de uma sessão de vacinas experimentais, quando finalmente tomou tal decisão. Entrou em seu quarto e esperou a enfermeira sair para colocar seu plano em ação. Tinha escondido, embaixo de seu colchão, uma faca pequena, que mais parecia um punhal, a arma perfeita para dar-lhe a paz almejada. Por, talvez, dar-lhe a chance de rever sua esposa.
Deitou-se sobre a cama e esperou a enfermeira se retirar, esperando um pouco para ter certeza. Retirou sua roupa e cortou a mesma cruz que Camila tinha no dorso. Ardia, doía, mas não mais que o que passou naquele lugar e principalmente naquele dia. Com o dedo sujo de sangue, escreveu na parede: “Eis o que teu Deus queria. O fim do monstro chegou”. Após isso, cortou seus pulsos na vertical e abriu seus braços.
— Crucifica-me, assim como crucificou — sussurrou e fechou os olhos, esperando pelo beijo da morte.
Horas depois uma enfermeira encontrou Júlia morta, ficando horrorizada com a cena. O único lamento do diretor da instituição foi que sua verba de pesquisas havia se esgotado.

“Me leve à igreja. Louvarei como um cão no santuário de suas mentiras.Vou lhe confessar meus pecados, assim você pode afiar sua faca e me oferecer essa morte imortal. Bom Deus, me deixe te dar minha vida.”— Take me to church, Hozier.


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